Saída das Forças Armadas da Favela da Rocinha divide opiniões

Moradores temem volta da 'guerra' na Rocinha, enquanto Polícia Militar anuncia reforço de 500 homens

Por O Dia

Rio - A saída das Forças Armadas do entorno da Rocinha, na Zona Sul, dividiu as opiniões dos moradores sobre o que poderia acontecer na comunidade, mesmo com o anúncio de que o patrulhamento passará a ser feito com 500 homens da Polícia Militar. Alguns contaram que, já na quinta-feira, véspera da retirada, haviam recebido mensagens, via WhatsApp, informando sobre um suposto toque de recolher imposto por bandidos.

"Voltamos à estaca zero. Agora, as autoridades vão saber o que é guerra. Recebemos uma mensagem dizendo que tínhamos que estar em casa antes das 17h", contou ontem um morador, que saiu mais cedo do trabalho, na Zona Norte, para conseguir chegar em casa.

O policiamento na Rocinha foi reforçado ontem com policiais militares do Batalhão de Choque e do Batalhão de Operações EspeciaisEstefan Radovicz / Agência O Dia

Já um auxiliar administrativo, que mora na comunidade há 36 anos, afirmou que, com a saída das Forças Armadas, a vida voltaria ao normal. "Eles estavam deixando os moradores apreensivos. Tínhamos medo deles revirarem tudo nas nossas casas, como se fôssemos bandidos", disse.

Enquanto as Forças Armadas deixavam a Rocinha, às 7h30 de ontem, a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil, os Batalhões de Operações Policiais Especiais (Bope), de Ações com Cães (BAC) e do Choque entravam na comunidade para checar uma denúncia de que um arsenal com armas de grosso calibre estaria escondido em uma casa na localidade conhecida como Vila Verde, no alto da favela, e seria do traficante Rogério Avelino Silva, o Rogério 157. No entanto, os policiais encontraram apenas pichações intimidadoras, indicando que o bandido teria deixado a facção Amigos dos Amigos (ADA) e se juntado ao Comando Vermelho (CV). "É o bicho, 157... CV", diziam uma das pichações.

A tropa deixou cartazes agradecendo a colaboração da populaçãoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Ao longo do dia, não foram ouvidos tiros. Escolas, UPAs, Clínicas da Família e o comércio funcionaram normalmente. Mas, antes, de madrugada, um suspeito, identificado como Wilian Lopes de Oliveira, de 22 anos, havia sido morto em uma troca de tiros com policiais do Batalhão de Choque. Ele estava com uma pistola, carregador com 24 projéteis, R$ 72 e um celular.

'Bocas' funcionaram a todo vapor

Mesmo durante o cerco realizado por mais de 950 homens das Forças Armadas, durante uma semana, testemunhas afirmaram que as bocas de fumo da Rocinha continuaram funcionando “a todo vapor”. De acordo com relatos, um homem, conhecido como ‘Bambu’, estaria no comando do tráfico de drogas na localidade conhecida como Roupa Suja e teria virado o braço direito de Rogério 157.

Moradores da Roupa Suja afirmaram que “a situação está pior do que era antes” na localidade. Pouco antes de iniciar a saída da Rocinha, os militares deixaram uma mensagem de agradecimento para a população.

Eles colaram cartazes nos postes, dizendo que a “colaboração dos moradores foi importante para o trabalho” deles na região.

Ataque com faca agita a comunidade

O pai de um dos dois adolescentes que foram torturados na Rocinha, na quinta-feira, foi preso, ontem, após esfaquear no pescoço um dos supostos agressores, Carlos Alexandre Camelo da Costa, de 19 anos, na porta da casa dele, na localidade do
Valão.

Após o crime, o guardião de piscina Fabrício Costa Manhães correu e foi perseguido por moradores, que tentaram linchá-lo. Ele se entregou a PMs e foi preso em flagrante por tentativa de homicídio. Segundo o titular da 11ª DP (Rocinha), Antônio Ricardo Nunes, Carlos Alexandre está na lista de bandidos com mandados de prisão devido aos confrontos na Rocinha.

Fabrício alegou que agiu para vingar o que fizeram com seu filho, identificado pelos agressores como suposto simpatizante da facção de Rogério 157. Carlos Alexandre foi levado para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca.

No fim da tarde, um idoso morreu ao ser atropelado por um PM em uma motocicleta do Batalhão de Choque (BPChq). Segundo a Polícia Militar, a vítima atravessou a via por trás de um ônibus e acabou sendo atingida. O militar, conforme a corporação, não conseguiu desviar a moto.

O idoso não foi identificado. Ele chegou a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Hospital Muncipal Miguel Couto, no Leblon, na Zona Sul, mas não resistiu aos ferimentos.

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