Rio terá novo modelo de calçadas

Prefeitura garante manutenção das pedras portuguesas e abrir escola para formação de calceteiros

Por O Dia

Rio - No meio do caminho tinha uma pedra portuguesa. Solta. Uma não, muitas. Os incontáveis buracos que a cada dia aparecem nos passeios do Rio de Janeiro expõem cariocas e turistas, especialmente idosos, deficientes visuais e cadeirantes, a riscos iminentes de quedas e fraturas. E refletem falhas na manutenção dos mais de 1,2 milhão de metros quadrados desse tipo de calçamento o maior do mundo trazido de Portugal pelo prefeito Pereira Passos em 1906.

Os problemas acarretados pelas crateras em uma das belezas arquitetônicas mais tradicionais da cidade que são, em alguns trechos, como na Avenida Atlântica, tombadas como patrimônio histórico fizeram o governo municipal anunciar duas medidas: a criação de um novo modelo de calçada para o município, e a abertura de uma escola para formar calceteiros especializados em pedras portuguesas.

Calçadas de pedras portuguesas%2C como a da Avenida Atlântica%2C estão cheias de buracosDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

A Praça Serzedelo Correa, em Copacabana, será a primeira a ganhar piso em blocos pré-moldados intertravados de concreto, que deverá ser copiado nos 36 milhões de metros quadrados de pavimentos para pedestres nos bairros. A ideia é polêmica. Críticos e historiadores temem que a prefeitura passe como um rolo compressor sobre o centenário e famoso conjunto de mosaicos.

O secretário municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), Rubens Teixeira, garantiu que a pasta vai poupar as pedras portuguesas. O secretário adiantou, porém, que áreas "já descaracterizadas" ganharão o novo padrão. A iniciativa é fruto de um Termo de Cooperação Técnica entre a Seconserma e a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

"Temos grande preocupação com a questão. Faremos campanha de conscientização para que cada um entenda e assuma sua responsabilidade na manutenção de calçadas", adiantou Rubens.

O historiador Milton Teixeira sugere que associações de moradores e entidades de defesa do patrimônio arquitetônico fiscalizem de perto. "O calçamento de pedras portuguesas já está descaracterizado em muitos endereços. Sendo assim, vão meter cimento sobre artes que ajudam a contar a história do município?", questiona.

Outro historiador, Nireu Cavalcanti lembra que foi no fim dos anos 1960, que a Avenida Atlântica passou por sua última e definitiva reforma. "O artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx triplicou o tamanho das calçadas e o desenho de ondas, antes perpendicular, passou a ser paralelo à praia".

Cadeirante, a funcionária pública Monique Pegado, 33, se acidentou num buraco, em Copacabana, e machucou a testa. "Bastou um segundo de distração", lamentou. Antes, um grave acidente com a atriz Beatriz Segall, que teve o rosto todo machucado, aos 87 anos, em uma calçada da Gávea, em 2013, já chamava a atenção para o mau estado da pavimentação.

Mais de 1,6 mil pedidos de consertos só em um ano

Por possuir apenas 30 calceteiros especialistas em pedras portuguesas, o equivalente a um para cada 40 mil metros quadrados, a prefeitura decidiu abrir uma escola para formar mão de obra. "Estamos buscando recursos junto ao BNDES", revelou Rubens Teixeira.

Só no primeiro semestre deste ano, o serviço 1746 recebeu mais de 1,6 mil solicitações para tapar buracos em calçadas. Desse total, 457 foram consertados e as demais solicitações encaminhadas a responsáveis, como donos de estabelecimentos e concessionárias.

A Seconserma fiscaliza calçadas por meio de 25 gerências. O prazo para reparos vai de 30 a 60 dias. Em 2016, foram 15,2 mil notificações, com 70% dos casos resolvidos. As multas variam de R$ 250 a R$ 3 mil.

Em nota, a prefeitura informou que o estoque atual de pedras portuguesas é de 45 metros cúbicos (11 caminhões basculantes). A aquisição é feita por pregão eletrônico.

As pedras portuguesas dividem opiniões. "Só causam acidentes", lamenta o aposentado Jedeir Alencar, 78. "São ícones e precisam de mais atenção", diz a professora Adélia Alves, 35.

Em frente a residências e estabelecimentos comerciais, a responsabilidade de conservação é do proprietário. Já nos locais públicos, como calçadas de praias e praças, a manutenção é da Prefeitura.

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