Martírio na saúde municipal

Sem remédios e profissionais, unidades recusam pacientes que penam por atendimento

Por O Dia

Rio - Tão insuportável quanto a dor, é o sofrimento da população carioca sente ao procurar socorro em uma das unidade de saúde do município. Na Zona Oeste, onde vivem os mais carentes, o impacto causado pela contenção de despesas por parte da Prefeitura do Rio, que provocou o desabastecimento dos insumos mais básicos e o sumiço dos profissionais de saúde das unidades, pois muitos se recusam a trabalhar sem receber, beira a tortura.

Moradora de Campo Grande, Verônica Lopes, 43 anos, que é doente renal, passou a manhã de ontem percorrendo unidades de saúde em busca de atendimento. Foram 55 quilômetros de martírio. Primeiro, esteve no Hospital Municipal Rocha Faria, no mesmo bairro onde mora, mas não conseguiu ser vista por um médico. Sentindo muitas dores, foi levada ao Hospital Souza Aguiar, no Centro, pela amiga Sandra Martins. "Ela está sentindo dor por conta de um cálculo renal e precisa fazer uma ultrassonografia. Vamos para a UPA que fica ao lado do Souza Aguiar para tentar fazer o exame", contou Sandra.

Liraldo levou a vizinha a duas unidades sem conseguir atendimentoEstefan Radovicz / Agência O Dia

O drama se repete no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo. Do lado de fora da unidade, pacientes e familiares aguardavam por atendimento, após recusa em outras unidades de saúde. O comerciante Liraldo de Machado, nem foi trabalhar, ontem pela manhã, para acompanhar sua vizinha, Marli Francisca da Silva. Ela sofreu um acidente doméstico e precisava de atendimento ortopédico.

Com fortes dores no ombro, a dona de casa bateu com a cara na porta do Posto de Saúde Professor Manoel de Abreu e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Kennedy. Segundo Machado, em nenhum dos locais a paciente conseguiu atendimento devido à falta de especialista. "Os funcionários das duas unidades indicaram o Hospital Albert Schweitzer. As UPAs praticamente acabaram, pois ninguém consegue atendimento", desabafou.

Verônica (D) teve de sair de Campo Grande%2C com dores renais%2C para buscar socorro no Souza Aguiar e em UPAEstefan Radovicz / Agência O Dia

Sem mamografia

A falta de medicamentos na Policlínica Manoel Guilherme da Silveira Filho, em Bangu, fez com que a professora Kátia Santos Araújo, de 63 anos, voltasse para casa sem os remédios que utiliza para controlar o colesterol. Segundo ela, os funcionários da unidade disseram que o medicamento Sinvastatina está em falta.

O drama da paciente ficou ainda mais grave ao descobrir que o tão esperado exame de mamografia, que aguarda há cerca de um ano, ainda não tem data para ser feito. "Meu pai morreu de câncer de mama e por causa desse histórico familiar eu fico desesperada. Em pleno Outubro Rosa eu não consigo fazer uma mamografia", reclamou a professora.

Na policlínica%2C em Bangu%2C a professora Kátia Santos teve de voltar para casa sem os remédios para controlar o coleterol e sem conseguir fazer mamografiaEstefan Radovicz / Agência O Dia

Nova lei retira poder de compra de medicamentos e materiais das OSs

Uma lei já sancionada pelo prefeito pode dar um fôlego maior ao orçamento da saúde, além de reduzir a dependência das Organizações Sociais, que administram mais de 50% das unidades municipais. Segundo o vereador Dr. Carlos Eduardo (Solidariedade), a Lei 6.260, de 11 de outubro, retira das OSs o poder de compra de insumos, medicamentos e materiais médico-hospitalar.

“O município empobrece todos os anos dando poder de compra às OSs. São R$ 800 milhões em hospitais e UPAs”, afirmou o vereador, explicando que as organizações ficariam encarregadas apenas da contratação de recursos humanos.

Para vigorar, falta apenas a regulamentação. De acordo com o vereador, a ideia é que
a prefeitura compre o material através da SMS ou pela Rio Saúde. “Isso faz com que o município ganhe em economia de escala. Vai comprar mais e vai ter mais descontos”, explicou Eduardo.

Ele afirmou que as OSs compram esse material mais caro, como já alertaram o Tribunal de Contas do Município e o Ministério Público. “Para que comprar mais caro? O município pode negociar preços. Com esse ato, além de economizar, a gente aumenta o controle e a transparência, porque tudo é publicado e ainda acabamos com a bitributação”, destacou o vereador. Eduardo revelou ainda que o prefeito está pensando em fazer uma central de compras junto com o prefeito de São Paulo, João Dória.

Secretaria de Saúde precisa de R$ 600 milhões este ano

O secretário municipal de Saúde (SMS), Marco Antonio de Mattos, informou que vai precisar de R$ 600 milhões até o fim do ano para manter a rede do município funcionando. Mas não sabe se vai dispor da verba, já que os repasses estão condicionados à arrecadação municipal, que despencou.

“A arrecadação de 2016 para 2017 caiu muito, dificultando a execução e pagamentos dos serviços realizados pela SMS”, afirmou Mattos. Ele confirmou que hoje a prefeitura está repassando R$ 91,4 milhões para as nove Organizações Sociais (OSs) que cuidam dos hospitais, UPAs, CERs, maternidades e Clínicas da Família municipais. “Isso vai dar um alívio para as OSs”, garantiu o secretário, afirmando que a verba é suficiente para quitar salários e adquirir insumos.

Mattos, que é médico, se disse profundamente incomodado com a crise da saúde e destacou que sua pasta não tem a chave do cofre. “A gente tem o orçamento, mas o dinheiro quem libera é a Secretaria de Fazenda”. O secretário alegou ainda que herdou da administração anterior um déficit de R$ 400 milhões referente à ampliação da rede primária e mais R$ 266 milhões de empenhos cancelados pelo ex-prefeito Eduardo Paes.

Marco Antônio também destacou que a crise no estado impactou os serviços do município. “Só no Hospital Souza Aguiar a demanda aumentou em 38%”. Mesmo reconhecendo que a crise na saúde está vinculada à queda da arrecadação (dos R$ 29 bilhões previstos, a prefeitura não conseguiu arrecadar nem R$ 25 bilhões), o presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, vereador Paulo Pinheiro (PSOL), enviou uma representação à Defensoria Pública do Rio de Janeiro, pedindo que seja estudada uma ação que obrigue o prefeito a gastar o orçamento que está escrito.

“O da Saúde é de R$ 5,4 bilhões. Mas o prefeito só gastou, até outubro, R$ 4,3 bilhões, que é o maior problema”, reclamou o vereador, sugerindo remanejamento de verbas, como a de publicidade, para a saúde.

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