Morto há 48 anos, líder da Revolta da Chibata ganha livro infanto-juvenil

Autora Stela Guedes quer resgatar memória de João Cândido

Por O Dia

Rio - Noite de 22 de novembro de 1910. Poderosos navios de guerra ameaçam bombardear o Rio de Janeiro. Cento e sete anos depois, nenhuma lembrança marcante ocorreu por conta do aniversário da Revolta da Chibata – motim militar em que dois mil marujos da Marinha, segundo historiadores, tomaram o controle de encouraçados que estavam atracados no litoral carioca, em protesto contra a insatisfação de soldados com punições a que eram submetidos: chibatadas. O castigo físico era aplicado por oficiais brancos contra marinheiros afro-brasileiros e mulatos.

João Cândido%2C líder da Revolta da ChibataReprodução Internet

Nesta quarta-feira, data alusiva aos 48 anos da morte de João Cândido, líder daquela rebelião, poucos também deverão se lembrar do Almirante Negro. Preocupada com o descaso em relação ao assunto, a jornalista Stela Guedes Caputo, acaba de escrever seu primeiro livro infantojuvenil, intitulado “Os Meninos João Cândido”. A autora é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PROPED/UERJ) e coordenadora do Kékeré (pequeno em yorubá), um grupo de pesquisa da instituição, com foco nas crianças de candomblé -

A obra, será lançada pela nova editora Omode (criança e pequeno caçador em yorubá), no próximo dia 16, às 15h, na Biblioteca dos Pretos Novos, localizada na Rua Pedro Ernesto, 32\34, na Gamboa. “Meu pai foi marinheiro e contava a história de João e de sua coragem. João Cândido foi minha primeira e eterna referência de herói e luta. Para mim, a Revolta da Chibata é épica, exemplo extraordinário de enfrentamento, quando marinheiros negros, injustiçados, castigados, se revoltam contra o poder dos oficiais brancos”, justifica Stela.

João Cândido%2C líder da Revolta da ChibataReprodução Internet

A jornalista lembra que João travou uma luta antirracista e pelos Direitos Humanos, numa época onde a comunicação ainda era precária. “Hoje, sua história precisa ser lembrada, contada e recontada todos os dias. Especialmente nas escolas, para que ele não permaneça em mais uma prisão: a do esquecimento”, diz a autora do livro, que pode ser encomendado também pela internet (basta acessar www.omodelivros.com) foi pensado para o público infantil.

Depois da revolta, que durou quatro dias (de 22 a 26 de novembro de 2010), João foi preso, internado em um hospício, expulso da Marinha e perseguido pelo resto da vida. Nunca mais conseguiu trabalhar como marinheiro. Sustentou a família como vendedor de peixes e morreu de câncer, no dia 6 de dezembro de 1969. Finalmente em 2008, uma lei concedeu anistia póstuma a ele e a outros marinheiros, mas até hoje a família não recebeu qualquer indenização.

Jornais noticiaram motim com destaque na épocaReprodução Internet

Na versão infantojuvenil da saga de João Cândido, a autora, sempre consultando referências históricas, imaginou uma infância para João, e defende, na obra, que “herói é quem se multiplica”. ¨Por isso o título fala em “meninos” e não menino João. “E para que João fale também aos meninos e meninas João Cândido, que lutam todos os dias para mudar a história”, completa Stela.

História

A Revolta da Chibata foi um importante movimento social ocorrido, no início do século XX, na cidade do Rio de Janeiro. Começou no dia 22 de novembro de 1910.
Neste período, os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas.

O estopim da revolta ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta.

Autora Stela Guedes quer resgatar memória do Almirante NegroDivulgação

O motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo. O clima ficou tenso e perigoso.O líder da revolta, João Cândido (conhecido como o Almirante Negro), redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil).

Segunda revolta

Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras. Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram presos em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Neste local, onde as condições de vida eram desumanas, alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.

O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta.

Conclusão: podemos considerar a Revolta da Chibata como mais uma manifestação de insatisfação ocorrida no início da República. Embora pretendessem implantar um sistema político-econômico moderno no país, os republicanos trataram os problemas sociais como “casos de polícia”. Não havia negociação ou busca de soluções com entendimento. O governo quase sempre usou a força das armas para colocar fim às revoltas, greves e outras manifestações populares.

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