Costa Verde sofre com guerra do tráfico, milícia e migração de bandidos

Ministério Público aponta déficit de policiais na região

Por O Dia

Rio - Tiroteios entre facções criminosas. Invasões de milicianos em favelas. Explosões a caixas eletrônicos. Taxa de homicídios crescente. Aumento nas apreensões de drogas e armas pesadas. Sexta maior taxa de homicídio do estado, com 52,05 casos por 100 mil habitantes (dados de 2015). O cenário poderia definir a violência de uma área da Região Metropolitana do Rio, mas as características resumem a escalada da violência em Angra dos Reis e Paraty, municípios paradisíacos da Costa Verde e que sofrem com a migração da criminalidade.

Na madrugada de ontem, foram registrados três assassinatos após bandidos invadirem um forró que acontecia no bairro Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis. Sobre o caso, que ocorreu na Rua São Jorge, ainda não há informações sobre a motivação do crime, segundo a polícia.

De paraíso a palco de guerra de facções criminosas%3A tiroteios e crimes violentos viraram rotina na cidade da Costa Verde fluminenseDivulgação

Na madrugada anterior, doze homens, todos armados com fuzis, explodiram três caixas eletrônicos em uma vila residencial perto da Usina Nuclear de Angra. Para evitar as câmeras, eles utilizavam a máscara do personagem dos quadrinhos criado na década de 1980, V de Vingança. Seu desenho representa o rosto de Guy Fawkes, que participou da chamada Conspiração da Pólvora em 1605 e tentou explodir o parlamento inglês. O final da HQ é o caos no governo. Assim também deixaram os criminosos o local, que chegaram a trocar tiros com policiais militares por cerca de 20 minutos, antes de fugir de lancha pelo mar. Pulando para a embarcação, um dos criminosos ainda jogou a máscara na areia da praia.

A Polícia Federal está responsável pela investigação e acredita que seja a mesma quadrilha que explodiu outro caixa eletrônico à beira-mar, em outubro, dentro de um resort de luxo em Angra.

A violência também atinge a pacata cidade histórica de Paraty. Há duas semanas, um assalto a uma loja de videogames no centro histórico terminou em tiroteio e deixou um adolescente morto, um PM ferido e um suspeito baleado. O jovem morto não tinha relação com o crime. Investigação apontou que os criminosos presos eram do morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio e, após se hospedarem em uma pousada, tentaram o assalto.

Bandidos que explodiram o caixa eletrônico do banco Santander%2C em Angra dos Reis%2C deixaram máscara no localDivulgação

Segundo o delegado de Paraty, Bruno Gilaberte, a migração criminal é um fato e a violência não se deve à falta de atividade policial. "Estatisticamente, nos últimos meses, o número de drogas e apreensões de armas aumentaram sensivelmente. Nunca se trabalhou tanto. Mas os crimes continuam aumentando. A questão não passa só pela polícia, o contexto sócio-econômico é que desemboca nesse tipo de criminalidade que, no final das contas, exige a intervenção policial", afirmou o delegado.

MP aponta déficit de policiais

Duas inspeções do Ministério Público no Batalhão de Angra dos Reis apontaram déficit de policiais em relação ao tamanho do território de patrulhamento, com mais de 2 mil quilômetros quadrados. Pelos municípios de sua responsabilidade passam 180 quilômetros de rodovias, usadas como rota pelo tráfico internacional de drogas e armas.

Um dos promotores escreveu que "a unidade está sem rádio, pois o antigo sistema analógico parou de funcionar". A comunicação dos 526 policiais existentes é feita por aplicativos de celular.

Em abril, para tentar frear a violência, o comandante-geral da PM colocou no comando da unidade o coronel Castro Maia, que tinha experiência na Maré, São Cristóvão e UPPs.

No seu comando, o número de apreensão de maconha dobrou (passou de 53 kg no primeiro semestre para 108 no segundo); 149 armas foram apreendidas (três fuzis) e 529 pessoas presas. Com mais operações, o número de confrontos também cresceu. Na semana passada, Castro Maia foi escolhido para assumir o Batalhão de Olaria.

O novo comandante de Angra irá enfrentar a expansão de milícias. A que era comandada por Carlos Alexandre da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, na Zona Oeste, vem buscando expandir seus domínios para a Costa Verde, principalmente na região do Frade, onde conflitos tem sido registrados constantemente.

Últimas de Rio De Janeiro