Tuk-tuk pode ser nova opção de transporte no Rio

Especialistas questionam segurança do serviço, que é muito comum em países asiáticos

Por O Dia

Tuk-tuk%2C muito comum em países asiáticos%2C pode ser nova opção de transporte no RioDivulgação

Rio - Eles são exóticos, ágeis e proporcionam deslocamentos divertidos e baratos para até duas pessoas na garupa de uma moto. São também barulhentos, pouco seguros e disputam o espaço das ruas com ônibus e carros, alertam especialistas. Os tuk-tuks — triciclos motorizados muito comuns em países asiáticos como China e Índia — estão prestes a desembarcar no Rio como nova opção de transporte de passageiros. O aplicativo 99 (antigo 99Taxi) quer lançar a novidade até janeiro, mas a ideia é recebida com polêmica por autoridades no assunto e mototaxistas.

A 99 começa hoje a cadastrar condutores interessados em participar do projeto piloto. O único pré-requisito é ter carteira de habilitação para motos. De acordo com a empresa, os tuk-tuks terão cintos de seguranca para o condutor e passageiros. A corrida vai custar menos da metade da tarifa de táxi. As regiões de praias, em especial a Zona Sul, e de comunidades são as preferidas para o lançamento devido às características do veículo e aos preços atrativos.

“Como tem um bagageiro avantajado, a gente imagina a galera levando prancha para ir surfar. Para uma cidade litorânea e bonita como o Rio, o visual do tuk-tuk é bem simpático para cariocas e turistas”, diz Ricardo Kauffman, gerente de Relações Públicas da empresa. Ele destaca ainda como vantagem a possibilidade de acessar ruas estreitas.

A empresa ainda não definiu quantos tuk-tuks pretende ter no Rio, mas trabalha com a referência do número de mil carros lançados em um serviço semelhante ao Uber em São Paulo.

Engenheiro de Transportes da Uerj, Alexandre Rojas acredita que o tuk-tuk, que pode atingir 70 km/h, coloca em risco a segurança das pessoas. “Não oferece segurança ao motorista nem ao passageiro porque não tem uma célula capaz de proteger a vida. E é instável demais. Se fizer uma curvinha fechada, capota”, diz Rojas.

O especialista também ressalta que o tuk-tuk vai na contramão das soluções para desafogar o trânsito. “A pergunta é: o quanto o tuk-tuk é melhor para a mobilidade se ocupa o espaço de um carro no tráfego?”, questiona.

Diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, Clarisse Linke acredita que os veículos motorizados (o tuk-tuk é movido a gasolina) não são as melhores opções de transporte por serem poluentes. Os riscos de acidentes oferecidos pelas motos e as velocidades também precisam ser avaliados, analisa.

“É fundamental pensar em alternativas mais acessíveis para a população. Mas nessa conta não podem entrar só o bolso do passageiro e o custo para o operador. Os impactos negativos também devem ser contabilizados.”

A Secretaria Municipal de Transportes respondeu que não pode avaliar o projeto enquanto não receber proposta da 99. A companhia pretende pleitear a regulamentação junto à prefeitura nas próximas semanas.

Mototaxistas desconfiam de novos rivais

Os condutores de mototáxis que transportam moradores de comunidades já estão receosos diante da possível concorrência. E caçoaram quando souberam que a 99 pretende colocar os tuk-tuks para subir morros.

“Pra subir ladeira com duas pessoas,teria que ser um veículo de 400 a 500 cilindradas no mínimo. Acho que vai ser difícil”, opina Jonathan Villar, 21, mototaxista no Rio Comprido. O tuk-tuk da 99 terá 200 cilindradas.

Jonathan também teme que mototaxistas que investiram na compra de moto nova, após a regulamentação do serviço pela prefeitura, em junho, saiam no prejuízo. “Tem várias comunidades que é só beco (sic), onde só moto passa. Eu acho que só ia vingar em lugar plano”, palpita o também mototaxista Warley Ponciano, 20.

Segundo Ricardo Kauffman, a 99 negocia parceria com a fabricante Motocar condições de compra e aluguel com descontos e facilidades de pagamento aos condutores. O preço do veículo, produzido na Zona Franca de Manaus, ainda está sendo definido.

Veículos já são realidade em cidades brasileiras e no Rio

Em 2013, o diretor de comunicação da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), o médico Dirceu Rodrigues Alves Júnior, alertava para os riscos da chegada dos tuk-tuks ao Brasil. Originário na Ásia, eles se espalharam no continente e já são realidade em cidades como João Pessoa, na Paraíba, e Sertãozinho, no interior de São Paulo. “Veja, a Índia é a primeira no ranking mundial de óbitos no trânsito, seguida pela China. Hoje, são países que têm a maior frota do tuk-tuk, daí maior número de sinistros”, escreveu.

Na Urca, em 2015, um empresário lançou serviço informal de transporte turístico com tuk-tuk. Os veículos já foram vistos também em Manilha, Itaboraí. Transporte semelhante, porém não poluente no Rio são os táxis ecológicos da Ilha de Paquetá — bicicletas elétricas que transportam até duas pessoas.

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