Transporte público ainda está longe de agradar a todos

Pesquisa revela que 4 em cada 10 comentários na internet sobre o assunto são de internautas que optam meio particular

Por O Dia

Rio - ‘Amo carro, na moral”. “Quero tanto ter meu carro”. “Uber, me salva pra eu não ir de busão”. De cada dez comentários sobre mobilidade nas redes sociais, quatro (43,7%) são como esses, de brasileiros rechaçando o transporte público e incentivando meios individuais de locomoção. Os internautas do Rio são os que mais fazem menção aos veículos particulares na internet (32,4%), incluindo discussões diversas como desejo de adquirir um veículo, medo de acidentes e combinação de bebida e direção.

O projeto Comunica Que Muda, da agência de publicidade nova/sb, montou um dossiê sobre o comportamento dos brasileiros na internet quando o assunto é mobilidade urbana. A análise levou em conta 392.932 menções feitas no Facebook, Twitter, Instagram, Youtube e Google+, entre 5 de agosto e 5 de outubro de 2016.

Os mesmos internautas que exaltam o transporte individual reclamam de congestionamentos nas cidadesArquivo O Dia

Pessoas que citaram de forma positiva o transporte público e outras alternativas, como bicicletas, caronas e deslocamentos a pé, somaram 29,5%, enquanto 26,8% das menções foram neutras. Para a equipe do projeto, a diferença de 14 pontos percentuais entre os defensores do transporte individual e os que apóiam os meios coletivos ou alternativos demonstra como o brasileiro prioriza o uso de veículos particulares.

“Trânsito lento, transporte público de péssima qualidade, ausência de formas alternativas de locomoção e falta de segurança estão entre os problemas enfrentados todos os dias pelos brasileiros, principalmente aqueles dos maiores centros urbanos. Com todos esses problemas, ainda há muito a avançar na mobilidade urbana”, diz Bob Vieira da Costa, sócio-presidente da agência.

Os pesquisadores concluíram ainda que, dos temas mais citados sobre a cultura do transporte individual, está no topo o desejo de adquirir um veículo. Seis em cada dez brasileiros (58,9%) manifestaram o desejo de se livrar dos meios coletivos.

O recepcionista Sérgio Menezes, de 23 anos, não vê a hora de comprar um carro. Morador de Caxias, ele trabalha no Centro do Rio e reclama dos gastos com passagens e dos serviços sem qualidade. “O que mais me incomoda é a falta de segurança no transporte público. A lotação, em alguns horários, também gera desconforto. A viagem é longa e, muitas vezes, o ar-condicionado não funciona”, desabafa.

Os internautas de São Paulo e Minas Gerais aparecem depois do Rio (16,8% e 7,6%, respectivamente) entre os que mais falaram sobre transporte individual na internet. O estudo foi realizado com a plataforma de monitoramento Torabit.

Principais queixas são engarrafamentos e acidentes

O estudo identificou uma contradição no cidadão conectado. Acidentes e congestionamentos foram citados como os principais problemas relativos ao trânsito no país, com 60,5% e 13,7%, entre 107 mil menções sobre problemas estruturais causados pelo transporte individual. Para os pesquisadores do projeto Comunica Que Muda, os dados demonstram que o brasileiro conhece os efeitos negativos de carros e motos para a mobilidade, mas continua incentivando a troca do transporte público pelo particular.

Diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento no Brasil (ITDP Brasil), Clarisse Linke credita os resultados do levantamento à baixa qualidade do transporte público no país.

“O transporte público no Brasil é muito sucateado, o que gera a percepção na população de que os meios coletivos não têm atributos que deem conta dos deslocamentos. Além disso, não temos de fato modos compartilhados bem sucedidos. Nos Estados Unidos, há muitos anos o modelo de carros compartilhados é sedimentado”, avalia.

A especialista sugere como solução para o problema investimentos e priorização política aos meios de transporte público e à infraestrutura cicloviária.

“Quando se opta pelo carro, busca-se conforto, segurança, mobilidade porta a porta. Para mudar essa mentalidade, precisaríamos ter um serviço de transporte público e outras infraestruturas que nivelassem esses atributos”, acrescenta.

A maior causa de reclamação sobre os transportes públicos nas redes sociais, segundo o estudo, é relativa aos ônibus, em especial sua demora e lotação, com 48,3% das menções. O segundo tema mais falado é o ponto de ônibus, com 31,2%.

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