Por douglas.nunes

O holandês Frank Van Veenendaal tinha apenas 14 anos quando deixou o Brasil, depois de viver por dez anos no Rio de Janeiro. Na época, o menino não conseguiu entender por qual razão o pai — executivo do ABN Amro Bank — estava interrompendo o que até hoje classifica como o melhor período de sua vida. Passados exatos quarenta anos, oportunidades não vão faltar para que ele relembre os tempos de infância no Posto Nove, em Ipanema. Depois de inaugurar oficialmente o primeiro escritório da americana Salesforce no Brasil —e também na América Latina — o vice-presidente executivo da companhia de softwares e serviços de gestão empresarial e de relacionamento com clientes ressalta que o país é um dos mercados-chave para o crescimento da empresa nos próximos anos.

“O Brasil vai se tornar uma das nossas principais operações nos próximos cinco anos”, afirma Frank Van Veenendaal, vice-presidente executivo da SalesforceMurillo Constantino / Agência O Dia

“O Brasil vai se tornar uma das nossas principais operações nos próximos cinco anos”, diz ele. A Salesforce investe no modelo de software como serviço, no qual os sistemas são entregues via internet. As cobranças se baseiam em taxas mensais,como uma conta de luz. Um dos ganchos desse conceito são as implementações com menor tempo e custo, em um contraponto ao modelo tradicional de vendas anuais de licenças.

Na avaliação de Veenendaal, esse modelo e o portfólio da companhia vão ao encontro do amadurecimento do mercado brasileiro. “Durante muito tempo, as empresas locais investiram em sistemas administrativos, de back office. Agora, o foco está migrando para o front office, para os sistemas de relacionamento e interação com os clientes. Esse é o nosso mercado”, explica.

Nesse cenário, o executivo enxerga boas oportunidades em replicar no Brasil uma situação que, segundo ele, já acontece em outros países. A proposta é atuar junto à base de clientes de empresas como a alemã SAP, que tem ampla presença no Brasil, especialmente nos sistemas de back office. “Muitos clientes já investiram muitos recursos em grandes projetos e estão buscando formas de responder às novas demandas do mercado, com maior rapidez e menos custo. É justamente nesse ponto que entra a computação em nuvem”, diz. O mesmo caminho na nuvem vem sendo trilhado por nomes que apostavam no modelo tradicional de licenças, como a própria SAP, a Oracle e a Microsoft.

Segundo Enrique Perezyera, presidente da Salesforce para a América Latina, já existem exemplos dessa migração na base de 1,5 mil clientes da Salesforce no Brasil. “Na Embraer, temos 34 pontos de integração de nossos sistemas na ponta com o back office da SAP. Clientes como Embratel e Saint-Gobain usam o mesmo modelo em muitas áreas de negócios”.

Para 2014, o plano é ampliar o time local, que hoje é de 20 profissionais. As contratações serão feitas nas áreas de vendas, pós-vendas, suporte técnico e marketing . “Em outros países que elegemos como mercados foco, geralmente ampliamos os times cinco a dez vezes nesse estágio de crescimento”, diz Veenendaal. A expansão da estrutura de vendas também inclui o reforço dos acordos com consultorias globais, regionais e locais, além de parceiros de menor porte.

O executivo não descarta o investimento em um data center local, infraestrutura essencial para aprimorar a entrega pela nuvem. “Começamos com dois data centers nos Estados Unidos e ampliamos recentemente essa rede com instalações no Japão, Reino Unido, Alemanha e França. Em médio prazo, replicar essa estrutura no Brasil será um caminho natural”, diz.

Empresa abre novas frentes para manter crescimento

Um dos ícones da computação em nuvem, a Salesforce se consolidou como a primeira empresa que investiu puramente nesse modelo a superar a casa dos bilhões em receita. Nos últimos anos, a companhia tem mantido um ritmo médio de crescimento de 30%, a despeito de registrar prejuízos líquidos, como no último ano fiscal, no qual apurou uma perda de US$ 232 milhões. “Decidimos priorizar o reinvestimento dos nossos ganhos. Nossa crença é de que novas tecnologias e novos mercados trazem um melhor retorno para os nossos acionistas do que lucro por ação”, diz Frank Van Veenendaal, vice-presidente executivo global da companhia.

Sob essa orientação, a Salesforce investiu em onze aquisições em cinco anos. Um dos destaques foi a compra, em 2013, da ExactTarget, por US$ 2,5 bilhões. Com esses acordos, a empresa está ampliando seu leque de ofertas para segmentos como marketing digital, colaboração e redes sociais corporativas, dentro de um conceito que classifica como “Internet dos Clientes”. A ideia é oferecer ferramentas que auxiliem as empresas a gerenciar todas as interações digitais com clientes, funcionários e parceiros. “Mais que esse conceito, as pessoas cada vez mais vão interagir com produtos e dispositivos. Nossa proposta é ajudar as companhias a se adaptarem a essa nova realidade para se comunicarem com seus clientes, de forma personalizada e, ao mesmo tempo, em escala”, diz o executivo.

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