Por monica.lima

São Paulo - Em meados de 2010, o fim da exclusividade para a captura de transações com cartões Visa e MasterCard alimentou a expectativa da configuração de uma nova dinâmica do setor, restrito, na época, ao domínio das adquirentes Cielo e Rede. Esse cenário atraiu o interesse de outras processadoras, incluindo as americanas Global Payments e Elavon, e iniciativas locais, capitaneadas pelo Santander e pelo Banrisul. Passados pouco mais de quatro anos, a esperada abertura do mercado não se concretizou. Mas é nesse cenário ainda altamente concentrado que a também americana First Data — um dos principais nomes mundiais do segmento — está investindo para se consolidar como uma nova força do setor no país.

Com um aporte de US$ 150 milhões, a chegada oficial da First Data ao mercado brasileiro de adquirentes — com a marca Bin — aconteceu no fim de julho, depois de um processo de estruturação de dois anos. Em janeiro, a empresa fechou um acordo com o Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob), que presta serviços financeiros para cooperativas de crédito em todo o país. O prazo extenso para consolidar a oferta tem uma justificativa. “Pelo tamanho da oportunidade, não era viável entrar no mercado sem uma solução completa desde o dia um da operação. O Brasil é complexo, com dinâmicas que não existem em outros mercados, como o foco em pagamentos parcelados. Esse e outros fatores exigiram um tempo para adaptarmos nossa plataforma às necessidades do país”, diz Debbie Guerra, presidente da First Data no Brasil.

A partir de fatores críticos para o setor, como alta disponibilidade, a empresa investiu em dois data centers locais, em um acordo com a IBM. “As duas estruturas vão operar simultaneamente. No caso de falha, um dos sites assume automaticamente a operação”, diz Fernando Toniolli, executivo da IBM responsável pelo projeto. Segundo Debbie, a parceria permitiu à First Data ter acesso a uma solução dentro de seus padrões globais de confiabilidade e segurança, com mais rapidez e menor custo. “Além do desempenho, a decisão de instalar data centers no Brasil nos deixa preparados para eventuais mudanças nas regras de privacidade e processamento local de dados, que estão em discussão no país”, diz.

Sob um cenário crescente de casos envolvendo fraudes em cartões, a First Data também está trazendo para o Brasil sistemas de proteção usados em sua operação global. Entre outros recursos, os softwares permitem antecipar eventuais ameaças a partir da análise de eventuais distorções no comportamento de compras dos consumidores e do cruzamento de informações de diversos países.

As armas da First Data para acirrar a briga no mercado, porém, são muito mais amplas. Fruto de uma série de aquisições, um dos planos é incorporar outras ofertas no entorno das soluções de pagamento, especialmente na vertente de gestão e integração das operações dos varejistas. Entre outras frentes, a companhia trará ao país, no início de 2015, uma solução da recém-adquirida Clover, que inclui recursos para o acesso de dados na nuvem e aplicações para dispositivos móveis. “Essas soluções de gestão e automação comercial são muito voltadas às necessidades dos pequenos e médios estabelecimentos. Queremos ir além do processamento e facilitar a vida desses negócios, o que vai incluir também serviços de consultoria e de conciliação financeira”, diz Debbie. Já na ponta das grandes redes varejistas, a busca é por contratos que já são atendidos globalmente pela First Data. Nessa direção, estão incluídas McDonald’s, Walmart e Starbucks.

No plano das taxas cobradas dos lojistas — uma das tônicas desse novo momento do mercado -, a ideia da First Data é investir em preços competitivo e agressivos. “Mas não temos a intenção de praticar preços que gerem uma falta de confiança na qualidade da solução”, diz. “Como já acontece lá fora, acredito que o mercado brasileiro passará por uma mudança em breve, que trará mais flexibilidade nos modelos de pagamento em toda a cadeia do setor”, afirma.

A montagem de um time com conhecimento das particularidades do mercado brasileiro foi mais uma prioridade. Em dois anos, a First Data contratou cerca de 200 profissionais para a área, incluindo nomes que atuaram em rivais como a Cielo e a Rede, e em empresas de toda a cadeia de pagamentos. Até o fim de 2014, a ideia é acrescentar outros 90 colaboradores a esse time.

Em meio à fase inicial de instalação dos primeiros equipamentos e soluções, a First Data já tem contratos firmados com as bandeiras MasterCard, Visa e Cabal, e está presente em quatro estados e 10 cidades do país. Nesse primeiro estágio, a previsão é de cobrir cerca de 500 estabelecimentos no país, como resultado do acordo com o Bancoob. Para ganhar escala, a First Data também vai investir em parcerias com novos bancos, com prioridade para acordos com instituições de atuação estadual, regional e, em alguns casos, de pequeno porte. “Nossa meta mais conservadora é chegar a uma participação de 7% a 10% até 2018”, diz Debbie. "A expectativa é que o Brasil se torne a segunda operação global da empresa nesse período".

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