Por diana.dantas

Encontrei dia desses um brasileiro que é executivo da indústria de entretenimento via internet. Trabalha numa empresa de atuação global, com receita e lucro de gente grande. Como ficamos duas horas não numa entrevista, mas num bate-papo entre velhos amigos, não seria correto identificá-lo. Vale, entretanto, transcrever aqui alguns pontos da conversa, porque certamente muitos haverão de se identificar com as queixas do meu não-entrevistado. No resumo da história, vamos ver que o sofrimento na nossa praia de tecnologia é mais ou menos generalizado.

O nosso personagem vive fora do país há muitos anos e anda meio descrente em relação ao futuro do Brasil — e nem vamos falar de política, apenas da nossa indústria de tecnologia. Sua primeira observação é sobre a falta de profissionais devidamente qualificados no que ele chama de eterno gigante adormecido. É um assunto espinhoso. A empresa dele quer aumentar sua presença por aqui, mas está se vendo quase na obrigação de importar pessoal, principalmente dos países asiáticos.

“O problema é o analista, por exemplo, que abusa da soberba e é incapaz de reconhecer que não é o melhor do mundo. Estamos longe disso, porque o que encontramos é gente que para de se atualizar e, no fim, não está preparada para qualquer tarefa. Mas pensa que sabe tudo. Corremos o risco de cair numa mediocridade generalizada, em todos os níveis da nossa força de trabalho.”

Alguém aí já viu algo semelhante? Pois é. Não é por acaso que o mercado sempre indica que há vagas...

O nosso amigo também reclama que não sabemos investir. Pior: a gente não sabe reinvestir. “O empresário aqui recebe a segunda rodada de investimentos, considera que isso seja lucro e trata de comprar uma Ferrari, em vez de reinvestir na própria empresa. Falta uma certa ambição saudável, um projeto de longo prazo. A gente tem que aprender que dinheiro não suporta desaforo. Se você não souber usá-lo, ele vai encontrar outro freguês.”

Essa fúria insana para ficar milionário e pendurar as chuteiras, tão comum entre nós, seria um dos fatores que ajudam a afugentar o investidor estrangeiro. Que também anda bastante assustado com a insegurança política e os custos para quem quer investir no país.

Mas isso não acontece em outros cantos do mundo? Não exatamente. Na Europa, diz a minha fonte, o sujeito pode criar uma empresa, ficar muito rico e continuar morando na mesma casa centenária, indo de metrô pro trabalho, levando as crianças para a escola pública, aquelas coisas. A rigor, nem poderíamos comparar a qualidade desses serviços, mas o que estaria por trás desse condicionamento é o que importa:

“Nós temos que aprender a arrumar a cama desde criança. Isso significa não depender dos outros. Aqui, temos muita dependência do governo, por exemplo. Como o mercado financeiro é mais atraente para o investidor em geral, só nos resta correr atrás de financiamento público, e isso é um perigo.”

O governo, a propósito, é outra queixa recorrente nas minhas conversas com executivos de todas as áreas, ao longo de uns tantos anos. Burocracia (ou burrocracia) e corrupção — municipal, estadual, federal — são as palavras básicas, e não há muita esperança de mudança nestes quesitos, praticamente formadores da nossa cultura. Sem falar na inapetência pública para entender que o planejamento de tecnologia tem que pensar no longo prazo, e não nas próximas eleições.

Esse condicionamento “público” volta, curiosamente, ao condicionamento “privado”, em que o sujeito também só se planeja para criar uma empresa de curto prazo. Quando dá certo, tudo bem, mas muitas vezes não é o que acontece. E o sujeito fracassa. Para nós, a falência costuma ser vista como uma desgraça, uma vergonha. Mas poderia ser vista de outra maneira.

“Falir mostra que você tentou, que acreditou, foi à luta, perdeu e acumulou bastante experiência ara não cair nos mesmos erros. Essa é uma oportunidade para se valorizar no mercado, principalmente na área de tecnologia, que é bastante dinâmica.”

A autocrítica e a capacidade de reconhecer erros, afinal, costumam falhar quando o sujeito está sempre por cima. E isso geralmente é um erro. A propósito, a fonte conta um caso interessante sobre como as conversas internas podem ajudar a chefia a rever conceitos e, assim, fazer a empresa crescer.

“Há alguns anos, no meio de uma crise, o CEO de uma empresa americana levou seus funcionários para um grande auditório. Pelo seu smartphone, cada um podia enviar perguntas, críticas ou sugestões que eram exibidas anonimamente no telão instalado no palco. E o CEO ia respondendo, uma a uma. O pau comeu, mas a experiência foi muito positiva e tem sido repetida desde então.”

Quantos de nós teríamos coragem de abrir a voz para as equipes, aproveitando suas ideias e sem guardar ressentimentos? Poucos. Muito poucos.

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