Por monica.lima

Rio - Disponíveis no mercado brasileiro há mais de 20 anos, os serviços de digitalização de documentos avançam pelo segmento educacional, na esteira da expansão do ensino à distância e da massificação dos dispositivos móveis. Vista inicialmente como alternativa para facilitar e baratear a distribuição de conteúdo, a digitalização abriu as portas para o chamado “big data da educação” em pesos pesados do setor privado de ensino, como a Kroton e a Estácio de Sá. A tecnologia permite, inclusive, a correção automática de provas feitas em papel e a tabulação dos resultados de forma a identificar deficiências e qualidades acadêmicas do estudante.

Com mais de um milhão de alunos no ensino superior e mais 290 mil no básico, a Kroton inicia este ano a distribuição de livros didáticos digitais (LDDs) para os estudantes dos seus cursos de nível universitário presenciais e a distância. A incorporação de obras com conteúdo interativo (vídeos, jogos, realidade aumentada etc.) está longe de significar o fim dos volumes impressos. “Vamos manter a distribuição do livro impresso. O aluno percebe um valor tangível nele”, justifica Cristiano Franco, gerente de Inovação da Kroton. Segundo Franco, a opção pelos e-books é mais uma opção pedagógica do que uma alternativa para reduzir custos. “Ao digitalizar o material do curso você consegue acompanhar todas as interações do estudante com o conteúdo. É o que chamamos de ‘big data da educação’”, acrescenta o executivo.

A Estácio de Sá — que conta com mais de 430 mil alunos — adotou no segundo semestre do ano passado uma plataforma digital que permite o acesso online e off-line ao conteúdo didático por meio de desktops, smartphones e tablets. “Essa tecnologia favorece muito o ensino a distância”, destaca Youssef Mourad, CEO da Digital Pages, empresa parceira da Estácio no projeto. Além de facilitar a distribuição do conteúdo dos livros digitais, a plataforma agrega também vídeos, simulados e jogos educacionais num só canal. O estudante pode, também, editar ou criar seu próprio conteúdo.

Como no caso da Kroton, uma das vantagens decorrentes da digitalização de livros, apostilas e outros materiais didáticos é a rastreabilidade de resultados. A partir da interação do usuário com a plataforma, é possível determinar quais conteúdos despertaram mais (ou menos) interesse do estudante. “É o ensino adaptativo. Podemos individualizar a abordagem utilizada para cada aluno”, diz Mourad. “Existe uma tendência cada vez maior de ter o professor na posição de mediador, moderador, em vez de fonte única do conhecimento.”

Uma das pioneiras na digitalização de documentos no Brasil, a Xerox vem diversificando sua atuação nesse segmento de negócios. Há dois anos a companhia oferece no país um sistema de correção automática de provas de múltipla escolha que dispensa os antigos cartões-resposta. “A prova de cada aluno recebe um código de identificação (QR code) individual na folha de respostas. Um aparelho multifuncional escaneia a folha, identificando o aluno e corrigindo a prova”, explica Maria Duarte, gerente regional de Canais para o Nordeste, da Xerox. Em relação aos cartões-resposta tradicionais, as principais vantagens da tecnologia são o menor percentual de erros na leitura e o fato de não ser necessário fazer um estoque do produto — as folhas de resposta podem ser impressas em papel comum”. Para diminuir a chance de “cola” entre alunos, o software da companhia embaralha as questões fornecendo dezenas de provas diferentes a partir das mesmas questões.

Em janeiro deste ano, a Xerox lançou outro sistema — ainda não disponível no Brasil — que permite a digitalização e a análise de trabalhos escritos à mão. Após a captura de imagem, um software lê e avalia o conteúdo em minutos, oferecendo vários tipos de relatórios.

No mercado desde 2010, a carioca Ozônio Brasil iniciou suas atividades — ainda informalmente — dois anos antes. Com um portfólio de clientes que hoje inclui grandes empresas, como Bradesco, Mundo Verde e Cosan, a Ozônio começou digitalizando acervos de universidades públicas, incluindo não só documentos históricos mas também bancos de teses de mestrado e doutorado. Nesse nicho, um dos projetos de maior porte foi o banco de leis do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A empresa também digitalizou o acervo do filólogo Antônio Houaiss, falecido em 1999. O projeto — que reúne prefácios, capítulos de livros e obras inteiras do intelectual — ainda não está disponível na internet para o grande público. “Existe ainda uma resistência grande da parte das editoras a esse tipo de projeto, por conta dos direitos autorais”, conta Guilherme Ferreira, diretor da Ozônio Brasil.

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