Por monica.lima

São Paulo - Batizadas de hackathons, as maratonas de programação se tornaram populares no mundo da tecnologia ao reunirem experts em códigos, bits e bytes em torno de um desafio, muitas vezes por pura diversão ou exibição de conhecimento. Com a disseminação dos dispositivos, aplicativos e afins entre consumidores e empresas, esses eventos que duram horas ou mesmo dias estão alcançando uma nova fronteira. Além de ganhar um componente estratégico entre as companhias do setor, os hackathons começam a ser vistos como uma ferramenta para que empresas dos mais variados segmentos acelerem o desenvolvimento de inovações e a aproximação com o universo digital.

“Qualquer empresa que planeja desenvolver uma cultura de inovação e entrar no mundo da tecnologia precisa estar perto dessa comunidade. E os hackathons são uma das melhores maneiras de atingir esse objetivo”, diz Wesley Schwab, gerente de inovação da Telefônica. “À medida que se toma contato com esse universo, a empresa tem um contraponto à sua cultura interna, o que abre a possibilidade de pensar fora da caixa”, observa.

Com uma série de maratonas com universidades e a Wayra, sua aceleradora de start-ups, a Telefônica enxerga nos hackathons uma via para encurtar a criação de inovações em duas áreas estratégicas: a internet das coisas e as cidades inteligentes. Um exemplo recente foi um participante que criou uma solução baseada em sensores para gerenciar a cisterna de sua comunidade. A tecnologia está em fase de prototipagem e a ideia é buscar parcerias com prefeituras para testar e validar a ferramenta. “Se os projetos gerados nos hackathons forem bons, nada impede de trazermos para dentro de casa e incorporá-los ao nosso portfólio”, diz.

A visão mais ampla é também um dos fatores que motivaram a Natura a investir nessa frente. Em parceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT), a companhia promoveu um hackathon que reuniu especialistas do MIT, funcionários, estudantes e consumidores. “É possível unir diferentes perspectivas, vivências e competências que se complementam e permitem tirar as ideias do papel para que elas se tornem de fato uma inovação. O hackathon foi um marco na nossa história de inovação”, diz Adriano Jorge, gerente de redes e parcerias para inovação da Natura.

Com 72 horas, a maratona incentivou a criação de protótipos com soluções que aproximassem a empresa do mundo digital e ampliassem a experiência dos consumidores, seja no uso ou na entrega dos produtos. “Decidimos explorar as oportunidades dessa conexão para expandir os limites do produto cosmético”, diz. Embora não revele detalhes, Jorge conta que dois projetos estão sendo aprimorados em parceria com a área de inovação da Natura, que planeja investir em novos eventos ainda nesse ano.

A MasterCard é mais uma empresa que estuda maneiras de refinar os projetos gestados nesses eventos.

Neste mês, o Brasil recebeu a etapa local do “Masters of Code”, hackathon que está sendo promovido pela companhia em outras nove cidades no mundo. O evento estimula a criação de produtos e serviços digitais a partir de plataformas tecnológicas da MasterCard. Além de presença na etapa final, que acontece em dezembro, no Vale do Silício, e um prêmio de US$ 100 mil para o vencedor, a competição inclui outras possibilidades para os participantes. “No Brasil, tivemos acesso a 26 ideias com muito potencial. À parte da premiação, temos total interesse em continuar acompanhando esses projetos, seja por meio de mentoria, apoio no desenvolvimento ou mesmo com aporte financeiro e incorporação ao portfólio”, diz Marcelo G. Tangioni, vice-presidente de produtos da MasterCard no Brasil e Cone Sul.

Um dos projetos é uma plataforma que promove leilões em tempo real para pequenos estabelecimentos comerciais que buscam a antecipação de recebíveis. Os hackathons integram uma estratégia mais ampla da empresa. “Eles fortalecem nosso posicionamento como uma empresa de tecnologia para meios de pagamento, e não apenas como uma bandeira de cartões”.

Essa busca é também um dos motes da Ford, que vem realizando uma série de eventos globais. “Investimos muito em tecnologia e é muito importante ter esse reconhecimento pela comunidade. Eles são formadores de opinião, estão sempre à frente das inovações e precisamos entender o que eles pensam”, diz Adriane Rocha, gerente de relações corporativas da Ford.

A montadora realizou um hackathon no Brasil para estimular a criação de aplicativos para sua plataforma SYNC AppLink, que permite aos motoristas acessar aplicativos dos smartphones via comando de voz. “Quanto mais aplicativos, mais atrativo fica o nosso produto”, explica. Com 24 horas de duração e 30 projetos, o evento teve como vencedor um aplicativo que registra diversos dados do carro, como velocidade média e distância percorrida. Um dos mercados potenciais é o segmento de seguros.

Para a Ci&T — multinacional brasileira de tecnologia —, entre outras finalidades, os hackathons são um elemento essencial na seleção de novos talentos para integrar sua equipe. “Esse tipo de evento é ideal para atrair profissionais dentro do nosso perfil e avaliá-los na prática, com a mão na massa”, diz Marília Honório, gerente de engajamento e contratações da Ci&T. “Ao mesmo tempo, essas pessoas têm a oportunidade de conhecer o ambiente e a cultura da empresa”, afirma.

Em 2014, a Ci&T realizou onze hackathons, que envolveram desde competições com robôs virtuais criados pelos participantes até o desenvolvimento de aplicativos para ONGs. Os eventos contaram com a presença de 660 desenvolvedores, dos quais, 180 foram contratados pela companhia.

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