Por parroyo

A Intel anda viajando no tempo. Mais exatamente, está passeando pelo futuro, porque o passado já não tem tanta graça. E o futuro da Intel tem a ver com software, software, software. A ideia de que a maior fabricante de chips do planeta é uma empresa de hardware está ficando cada vez mais longe.  A preocupação, já há algum tempo, é ramificar sua inteligência em todas as coisas. Como se sabe, quase tudo estará conectado à rede algum dia, e a Intel está de olho nem tanto lá na cloud, território virtual onde tudo cabe, mas na ponta de cá. Quer estar presente nos dispositivos que vão enviar para a rede as toneladas de bytes, dia após dia, quando a tal Internet das Coisas estiver a pleno vapor. Não é à toa que está investindo tanto na compra de patentes, ou na parceria com desenvolvedores e outras cabeças criativas. O hardware é limitado. O software, não.

Daí que a Intel anuncia agora, por exemplo, seu programa para capacitar centros independentes de design na área de dispositivos. O Brasil é fraco nessa praia. Países asiáticos abocanham 95% desse mercado em todo o mundo. Vamos nacionalizar o setor, portanto. É para isso que a gigante vai investir uma parte dos R$ 300 milhões destinados a pesquisa e desenvolvimento somente no país, como anunciou no início do ano. A partir do ano que vem, pesquisadores brasileiros vão puxar nove meses de estudos na Ásia, e vamos ver no que dá. Não há por que dar errado, afinal.

Essa tropicalização do design de computação pessoal é bem-vinda. É sob medida para o que o cliente brasileiro está querendo. Assim como em outras áreas — publicidade, por exemplo — a globalização das ideias está longe de ser a melhor opção para a tecnologia. No caso do design, nada garante que o Brasil não possa tornar-se referência para boa parte de países com economia e necessidades semelhantes.

Como diz o David González, diretor-geral da Intel no Brasil, o negócio é ser o catalisador dessa indústria. Faz sentido. Você financia, incentiva, alimenta os parceiros, e depois se firma no centro desse ecossistema.
E o ecossistema de que falamos consiste virtualmente de qualquer coisa — ou gente, ou bicho — conectado à internet e que não esteja em Marte (por enquanto).

Carros, por exemplo. Em parceria com a brasileira Autofind, a Intel investiu num dispositivo que armazena e transmite inúmeras informações sobre um veículo. Com isso, facilita o pagamento não só de pedágios, o que já existe há séculos, mas pode viabilizar pagamento de combustível em postos, por exemplo, ou controlar taxas, multas e todas aquelas pragas que os departamentos de trânsito inventam. Sem falar na própria segurança do veículo. Por que um dispositivo como esse não pode estar acoplado à roupa de alguém? Ou à coleira do seu bichinho de estimação? Essas ‘coisas’ já existem, mas o que a gente vê, agora, é que seu potencial de uso é virtualmente infinito.

Por falar em veículos, a empresa apresentou semana passada, durante a sua ‘Innovation Week’, uma versão para o carro do futuro. Resumidamente, digamos que o motorista se torne apenas um detalhe, uma formalidade legal, não muito diferente disso.
Com tudo estará conectado a tudo, o automóvel saberá quais dispositivos estarão ativos em seu interior, conhecerá os caminhos, reconhecerá você e seu estado de ânimo, vai tomar cuidado com o trânsito etc etc. Mais que isso, estará facilmente protegido da ação de hackers — que, hoje, é o maior medo de quem está dentro de um carro (ou até um avião!) controlado menos por um piloto que por alguma máquina espertinha.

Máquinas espertinhas, aliás, não faltaram na demonstração da Intel. Tornou -se rapidamente um objeto de desejo, aqui em casa, o híbrido 2x1 (ora notebook, ora tablet) mais fino e mais leve do mercado, que deve chegar às prateleiras ainda este ano, deixando para trás qualquer aparelho hoje disponível por aí.Anote o nome de referência: Llama Mountain. Roda um Core M sem necessidade de ventoinhas para resfriamento. Com tela de dez polegadas, são 6,8 milímetros de espessura e 550 gramas de peso. Pitéu.

Reconhecimento de gestos aplicado aos dispositivos também está em alta. O sistema RealSense 3D Camera é facilmente integrado a diversos tipos de aparelhos, abrindo caminho para entretenimento, educação, segurança e outras tantas aplicações.

Outra das apostas nessa viagem ao futuro da Intel é a velha e boa holografia, que ainda surpreende e vai ganhar espaço nas pequenas máquinas. Interagir aparentemente com o nada é divertido e vai se tornar, em breve, uma ferramenta de produtividade. É esperar para ver, assim como sistemas robóticos cada vez mais dinâmicos e inteligentes.

O desenvolvimento de novas placas geradoras de energia solar também está em estágio avançado. As placas são solução para alimentar equipamentos em regiões remotas ou áreas sob conflito.
Enfim, toda essa movimentação da Intel é uma bela jogada, que poderá apagar de vez a ideia de que ela perdeu fôlego quando não deu a devida atenção à fabricação de chips para mobilidade. Mas isso é passado. E, como se sabe, o passado a Deus pertence...

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