Arrumando a casa da web

Em abril de 2012, o americano Mike Mann registrou cerca de 15 mil domínios em apenas 24 horas. Ele garante que fatura pelo menos uns US$ 400 mil por mês com esse negócio

Por O Dia

Parece que foi ontem, mas já faz 30 anos que uma empresa registrou o primeiro domínio ‘.com’ no planeta internet. Quem puxou o bonde, em 15 de março de 1985, foi a Symbolics, que fabricava computadores. Alguns aí lembram que não era exatamente moleza navegar pela internet naquela época, não só porque a conexão era lenta, como a interface não era nada agradável. Eram tempos deveras românticos. Hoje ainda existe o site, mas já está em outras mãos. O que interessa é que o bonde inaugurado pela Symbolics conta hoje com mais de 116 milhões dos chamados domínios de primeiro nível ‘.com’, embolando o meio de campo. Se, no início da internet ‘comercial’, apenas empresas se registravam sob esse domínio, logo ele começou a ser adotado por pessoas físicas, ONGs, escolas e quem quisesse, em qualquer lugar do mundo. Aí é que está o busílis. A casa web começou a ficar muito bagunçada.

Foi por isso que, depois de alguns anos e muita discussão técnica (e comercial, claro), começaram a surgir outras extensões de domínio de primeiro nível, como ‘.net’, ‘.org’, ‘.info’ etc etc. Desde então, já existem umas 1.300 extensões dessas, como ‘.xxx’ (para sites de conteúdo safadinho), ‘.you’ etc e tal. Somente no ano passado, por exemplo, foram criados mais de cem.

Todo esse movimento é uma tentativa de arrumar a casa, deixando cada um no seu quadrado, de acordo com o setor de cada empresa. Quando você entra num site com a extensão ‘.edu’, por exemplo, já sabe que é da área educacional. Aos poucos, o sistema vai sendo refinado, para que caibam todos os interessados em ter seu site mais facilmente localizados, sobretudo nos mecanismos de busca — ou seja, basicamente, o Google...

Agora mesmo, por exemplo, chega por aqui o domínio ‘.ltda’. Como se pode deduzir, só poderá ser reservado por empresas registradas como Sociedade Limitada. Quem está por trás da novidade é a InterNetX, grupo de origem alemã que detém 10% do market share global de registros de domínios e que está no Brasil há três anos, prospectando o mercado e fincando raízes.

E não é à toa que a InterNetX está centrando suas forças por aqui. Existem registradas, no Brasil, mais de cinco milhões de empresas LTDA. Até agora, somente 250 brasileiras entraram na onda, mas o grupo espera fechar com cinco mil sites até o fim do ano. Sem falar no mercado latino-americano, onde outro milhão de empresas também pode usar a mesma extensão.
Só que o tiro pode ir ainda mais longe que isso, e eis aí uma grande sacada dos alemães. Pelo novo sistema, uma empresa pode registrar também a sua atividade genérica. Ela vira sinônimo do seu mercado — facilitando, ainda mais, a sua localização no Google.

Suponhamos que você seja o feliz proprietário do site ‘www.farmaciadocatete.ltda’, por exemplo. Assim, poderia registrar não só o nome de fantasia, como também o genérico ‘farmacia.ltda’, ou ‘remedios.ltda’, ou o que mais estiver relacionado, cercando o site pelos sete lados — e tornando virtualmente infinito o número de combinações possíveis. Com isso, leva mais vantagem a empresa que conseguir registrar o maior número de nomes relacionados ao seu negócio principal. É o que a InterNetX tem chamado de ‘endereço estratégico’.

E tem um detalhe: você só consegue registrar os ‘domínios genéricos’ que tenham a ver com o seu negócio principal — o que dá mais credibilidade para a empresa e mais segurança para os potenciais clientes. Não adianta o dono da Farmácia do Catete querer registrar, digamos, o domínio ‘lavanderia.ltda’, porque esta certamente não é uma atividade de uma farmácia. A não ser, talvez, que estejamos falando de lavagem de dinheiro, mas nem vamos entrar nesse assunto, que pode ser bastante espinhoso.

De qualquer maneira, estamos falando de um negócio com um tremendo potencial. Até porque, com uma crise de emprego circulando por aí, muita gente é obrigada a voar com suas próprias asas e criar a própria empresa. Se continuarmos assim, haverá uma explosão de sites com a extensão ‘.ltda’ — não exatamente por vontade própria, mas por necessidade de sobrevivência, mas aí é outro assunto, a ser tratado alhures...

* * * * *

Quando estava pesquisando aqui para rabiscar esta coluna, encontrei alguns dados curiosos, tipo pé de página, para quem gosta do mundo da internet.

Exemplo 1: somente para solicitar a exclusividade de negociar nomes de domínio como o ‘.ltda’ é necessário pagar US$ 185 mil ao Icann, que é o organismo responsável pela criação e administração do sistema de nomes de domínio. Diz-se que é uma entidade sem fins lucrativos, mas como é vinculado ao Departamento de Comércio dos EUA, o Icann está longe de não ter interesses comerciais, principalmente no que diz respeito à boa saúde americana.

Exemplo 2: em abril de 2012, o americano Mike Mann registrou cerca de 15 mil domínios em apenas 24 horas. É um velho especulador, que vive à espera de que alguém queira comprar-lhe um dos endereços. Ele disse, na época, que queria mesmo era dominar o mundo... Não conseguiu, mas continua fazendo isso, e garante que fatura pelo menos US$ 400 mil por mês com esse negócio. Que, outrora, a gente chamava de cybersquatting, ou cybergrilagem, que era quando um sujeito registrava um domínio com nome de empresas famosas somente para, posteriormente, ganhar alguma grana a com sua venda. Esse hábito feio está morto, acho eu.

Exemplo 3: o domínio mais caro, até agora, custou nada menos que US$ 35,6 milhões. Foi o Insurance.com, comprado — evidentemente —por um empresa de segurados, em 2010. Registrar um domínio não é caro. No caso das ‘.ltda’, aqui no Brasil, sai pelo equivalente a US$ 40, através de registradores credenciados, cuja lista a gente pode encontrar no site www.nic.ltda.


Últimas de _legado_Notícia