Rio - O atentado da rua Tonelero em 1954 é provavelmente a primeira lembrança que se tem quando o nome de Carlos Lacerda é mencionado. Uma das figuras de maior destaque na política nacional do século passado, ele completaria cem anos de nascimento no dia 30 de abril . Polêmico, jornalista apaixonado e inquieto, foi um dos maiores opositores do presidente Getúlio Vargas. É nesse período que sua atuação no cenário político brasileiro ganha força e inaugura o que se entende por movimento lacerdista, o mais forte dentro da UDN-União Democrática Nacional, seu partido, com seguidores fiéis. O jornal Tribuna da Imprensa por ele fundado em 1949, deu voz às suas ideias, suas críticas e sua ferrenha oposição. Do outro lado Samuel Weiner, no jornal Última Hora, fundado em 1951, dava voz aos getulistas. Para Lacerda ele deu o codinome O Corvo. O atentado da Tonelero, rua do bairro de Copacabana no Rio de Janeiro, no qual Carlos Lacerda sofreu uma tentativa de assassinato, deu início a um desfecho dramático na história que culminou com o suicídio do presidente da República.
Opositor de Juscelino Kubitschek, que se elegeu em 1955, Lacerda, antes do pleito, defendeu a interferência dos militares na política nacional e depois a interdição da posse dos eleitos. Em 1960 tornou-se o primeiro governador do recém-criado estado da Guanabara. Enérgico, fez ampla reforma administrativa. Exigiu formação e concurso público para o funcionalismo; investiu na estação do Guandu, responsável pela abastecimento de água na cidade; criou o Parque do Flamengo, construiu o túnel Rebouças e o Santa Bárbara, e fez a polêmica remoção de favelas da cidade. Nesse período divergiu do presidente da República, Jânio Quadros, a quem apoiara na eleição , se distanciou dos setores mais liberais do partido e passou a fazer um discurso anticomunista, ele, que, nos anos 1930, participou do grupo articulador da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização que propunha a luta contra o integralismo, o imperialismo e o latifúndio.
Em 1964 apoiou o golpe militar que derrubou o presidente da República João Goulart. Chegou a ir para a Europa, em viagem oficial, para divulgar os objetivos do novo regime porém, alijado das principais decisões do governo Lacerda, se desligou do projeto político militar que defendera. Viu fazer água sua pretensão de chegar à Presidência da República com o fim das eleições diretas impostas pelo regime. Em novembro de 1965 se afastou do governo da Guanabara. Em outubro de 1966, articulou a Frente Ampla pela redemocratização do país, movimento que reunia ainda Juscelino Kubitschek e João Goulart, lançado com um manifesto publicado naTribuna da Imprensa. Pouco tempo depois, em abril de 1968 o governo proibia todas as atividades da Frente Ampla. Com a edição Ato Institucional nº 5, em dezembro, Lacerda foi preso no Regimento Marechal Caetano de Farias, da Polícia Militar do Estado da Guanabara. Foi libertado após uma semana de greve de fome. No mesmo ano teve os direitos políticos suspensos por dez anos. Dedicou-se ao jornalismo e às atividades das empresas de sua propriedade. Morreu em maio de 1977.