Por monica.lima
A mostra dos painéis "Guerra e Paz" foi inaugurada em 6 de maio, no Grand Palais, em ParisDivulgação

Em 17 de setembro do ano passado, tocava o telefone celular de João Cândido Portinari, filho do pintor. Do outro lado da linha, estava a Ministra da Cultura, Marta Suplicy. “João Cândido, tenho uma boa notícia para você: consegui o Grand Palais para a exposição ser inaugurada em maio de 2014!”. Imediatamente, ele viajou para Paris, a fim de se reunir com a equipe do museu e estimar o custo da operação. Só assim seria possível dar entrada no pedido da Lei Rouanet. A aprovação veio em tempo recorde: em 20 de dezembro, a equipe do projeto Portinari estava pronta para captar os recursos. O período de festas atrapalhou o trabalho, que já era árduo: levantar R$ 9 milhões. Enquanto isso, o Grand Palais pressionava pelo cumprimento de prazos e pagamentos. A partir de então, começou uma enorme mobilização para que a primeira obra brasileira pudesse ser exposta em um dos espaços mais importantes do mundo.

Nomes como Eduardo Eugênio, da Firjan, e Claudine Bichara, da Câmara de Comércio França-Brasil fizeram diversos contatos para viabilizar o projeto. Entretanto, o aporte era muito alto e não estava ao alcance de qualquer empresa. Na véspera da chegada do Presidente da França, François Hollande, para visita ao Brasil, João recebeu outro telefonema importante. Era ninguém menos que Dilma Roussef, convidando-o para almoçar com os dois chefes de Estado no dia seguinte. Depois disso, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ligou para grandes empresários, com negócios em ambos os países, que permitiram a concretização do sonho de João Cândido. Na terça-feira, dia 6 de maio, a exposição foi inaugurada.

Levar a exposição ao público geral era um sonho antigo de João Cândido, que, segundo ele, acompanha-o desde os 17 anos. “Em 1956, antes de os painéis irem para a sede da ONU, houve uma inauguração no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Houve um grande clamor para que fosse dada uma chance ao público brasileiro de vê-los. O Juscelino Kubitschek, então presidente, e o Carlos Drummond de Andrade estavam na inauguração. Tarde da noite, a fila dava voltas ao quarteirão. Lembro-me bem da capa do Correio da Manhã no dia seguinte, com a manchete ‘Agora, eles irão definitivamente para a ONU. Quem quiser vê-los, que vá a Nova York’. Durante esses quase 60 anos, fiquei com isso atravessado na garganta”.

Além da restrição ao público, outro fato incomodava o filho de Portinari. Apesar de seus painéis terem sido instaladas no hall de entrada da sala da Assembleia Geral, o espaço mais importante da sede, a ONU parecia “esquecer” o pintor. Portinari não foi convidado para a inauguração da própria obra e, nos anos seguintes, a relevância do artista permaneceu oculta.

“O Itamaraty publicou um livro com todos os discursos de abertura. Tive a curiosidade de ler todos e fiquei chocado em constatar que em nenhum deles havia qualquer menção ao ‘Guerra e Paz’. Mesmo no discurso de 1957, quando os painéis foram instalados, nada foi comentado acerca daquelas duas pinturas monumentais, instaladas no hall de entrada da Assembleia há apenas duas semanas. Fiquei pasmo quando vi o nome do autor desse discurso: Osvaldo Aranha. O estadista era inclusive amigo de meu pai, tendo sido retratado por ele. Mas, pensando bem, eram tempos de guerra fria, de Macartismo, e a ONU sofria forte influência dos EUA. Não era de estranhar que não se quisesse mencionar um artista de esquerda. Mas mais tarde, nas décadas de 60, 70, 80, 90, etc. não dava para entender esta omissão”.

Antes de chegar a Paris, a exposição percorreu três capitais brasileiras. Em 2010, os painéis foram apresentados no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, reunindo mais de 40 mil pessoas em apenas 12 dias. Em São Paulo, 200 mil visitaram a exposição de fevereiro a maio de 2012, no Memorial da América Latina. O último destino no Brasil foi o Cine Theatro Brasil Vallourec, em Belo Horizonte, onde o público totalizou 80 mil pessoas em 40 dias.

Claudine Bichara, Presidente da Câmara de Comércio Brasil-França, foi uma das principais articuladoras da mobilização para levar os painéis ao Grand Palais, e destaca o significado desse feito.“Paris é uma das capitais do mundo. É a capital dos grandes ideais humanitários. Não há lugar melhor para dar esse recado da Guerra e da Paz ao mundo inteiro do que Paris e Nova York. Além disso, a cidade foi muito importante para a formação de Portinari”.

Homenagem a Iberê Camargo em São Paulo

O Centro Cultural do Banco do Brasil de São Paulo (CCBB-SP) está homenageando o centenário do artista plástico Iberê Camargo, com a exposição “Um Trágico nos Trópicos”. O projeto, que tem co-realização da Fundação Iberê Camargo, é a primeira grande exposição do artista em São Paulo nos últimos dez anos.

O espaço abriga cerca de 145 obras de Iberê. Dentre elas, 55 pinturas, 80 desenhos e gravuras além de 10 matrizes de gravura. As obras fazem parte da coleção da Fundação e do acervo de colecionadores.

A exposição possui um formato retrospectivo, que enfatiza a fase madura do artista. Segundo o curador Luiz Camillo Osório, um “coroamento de sua trajetória, em que a recuperação da figura foi menos um retorno a algo que havia sido abandonado e mais uma explicitação da corporeidade — do homem e da pintura — e sua inscrição como visualidade encarnada”.

Iberê exerceu forte influência no meio artístico de sua época, apesar de nunca ter se filiado a correntes artísticas. Suas obras participaram de exposições de renome internacional, como a Bienal de São Paulo, de Veneza, Tóquio e Madri.

A mostra fica em cartaz até o dia 7 de julho.

ONDE ASSISTIR

De quarta à segunda, no CCBB-SP (Rua Álvares Penteado, 112 - Centro, São Paulo - SP). Das 9h às 21h.

Cultura britânica invade São Paulo até o dia 25

Com atrações que perpassam o universo musical, cinematográfico e até gastronômico, o Cultura Inglesa Festival começa hoje, em São Paulo. É a 18ª edição do evento, que acontece anualmente e busca promover a cultura britânica, sem deixar de garantir espaço para produção brasileiras.

O chamariz do festival, todos os anos, são as atrações musicais. Nesta edição, há uma grande expectativa pela apresentação da banda escocesa “The Jesus and Mary Chain”. O grupo irá encerrar a programação, no dia 25 de maio, com show gratuito no Memorial da América Latina.

Também espera-se uma grande procura pela exposição “Cultura Inglesa à mesa”, do renomado ateliê Marko Brajovic, responsável pela mostra “David Bowie”. A exposição estará instalada na estação República do metrô.

O gerente do Departamento Cultural da Cultura Inglesa, Laerte Mello, chama atenção para a peça “Chalk Farm”, que possui uma relação com o Brasil. “É um espetáculo sobre as manifestações de rua que tomaram Londres em 2011. Mostra uma mãe e um filho vendo esse acontecimento e tomando parte, a visão de um e de outro, e como elas vão mudando. Vai ser um paralelo não só de arte, mas político”.

NOTAS

Literatura e história no Porto do Rio

Neste fim de semana, a Casa Porto receberá historiadores, jornalistas e antropólogos para conversas informais sobre literatura e história da região. É a segunda edição do Fim de Semana do Livro no Porto (FIM), no Largo da Prainha, na zona portuária.

No palco, a construção da nação brasileira

O Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, recebe o espetáculo “Cores do Brasil”, produção do Grupo de Dança Dissídio Coletivo. O coreógrafo João Wlamir apresenta o tema da construção da nação brasileira. As apresentações acontecem às 19h.

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