Por monica.lima

Rio - O engenheiro e ex-deputado federal paulista Rubens Beyrodt Paiva foi levado de casa no Rio, no bairro do Leblon, no feriado de São Sebastião, em 1971. Foi preso por agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) e entregue aoDepartamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), onde foi torturado até a morte. Tinha 41 anos. Nesta semana, 43 anos depois, o Ministério Público Federal concluiu o primeiro inquérito do caso e ajuizou denúncia contra cinco militares reformados do Exército.

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Foram acusados por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e associação criminosa armada o general José Antônio Nogueira Belham, ex-comandante do DOI-Codi, e o coronel Rubens Paim Sampaio, ex-oficial do Centro de Informações do Exército. Por crimes de ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa armada foram denunciados o general reformado Raymundo Ronaldo Campos e os capitães reformados e irmãos Jurandyr Ochsendorf e Souza e Jacy Ochsendorf e Souza. O MPF ofereceu à Justiça novas provas que confirmam a participação dos cinco agentes na morte de Rubens Paiva.

No telão, o ex-comandante do DOI-Codi, general José Antônio Nogueira Belham, um dos assassinos de Rubens PaivaJuliana Dal Piva / Agência O Dia

Outros nove agentes, já mortos, foram identificados como envolvidos no crime, entre eles o coronel Paulo Malhães, ex-oficial do Centro de Informações do Exército, que depôs na Comissão da Verdade, CNV, em 25 de março, após entrevista exclusiva ao jornal O DIA, quando confessou ser um dos comandantes da missão que sumiu, em 1973, com a ossada do ex-deputado. Um mês depois do depoimento, Malhães foi morto durante um assalto em sua casa, na Baixada Fluminense, em circunstâncias ainda não esclarecidas.

Ex-coronel Paulo Malhães%2C que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura%2C foi morto em casaJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia


?Nascido em Santos (SP), em 1929, Rubens Paiva se elegeu deputado em 1962 pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o mesmo do então presidente da República, João Goulart. Foi vice-líder do partido e vice-presidente de uma CPI instalada em 1963 com o objetivo de investigar duas instituições acusadas de receber recursos internacionais para desestabilizar o governo federal.

Cassado com o golpe militar de 1964, exilou-se na Embaixada da Iugoslávia, no Rio. Dois meses depois, deixou o Brasil e foi viver na França e na Inglaterra. No início de 1965, voltou ao Brasil e decidiu viver no Rio com a família, a mulher Maria Eunice, as quatro filhas e o filho, o escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva. No Rio, o engenheiro passou exercer a sua profissão.

Rubens Paiva ao lado da famíliaArquivo

A acusação para a sua prisão era que matinha correspondência com exilados políticos no Chile. No dia de sua prisão, a família de Paiva ficou detida em sua própria casa. No dia seguinte, sua mulher e a filha deles, Eliane , de apenas 15 anos, também foram detidas e interrogadas no Doi-Codi, mas não mais estiveram com Rubens Paiva. Na segunda vez em que levou roupas para o preso, a família foi informada que ele não se encontrava em nenhuma organização militar sob o comando do I Exército.

Para encobrir seu desaparecimento o Exército divulgou versão afirmando que "o paciente quando era conduzido por agentes de segurança, para ser inquirido sobre fatos que denunciam atividades subversivas, teve seu veículo interceptado por elementos desconhecidos, possivelmente terroristas, empreendendo fuga para local ignorado (...)".

Malhães, ao contrário do que disse ao jornal O DIA, negou à Comissão da Verdade que participara do sumiço do corpo de Rubens Paiva. À sua mulher, de nome Cristina, porém, admitiu que mentiu no depoimento, conforme disse ela ao O DIA: “o destino final do corpo foi um rio”.

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