Por monica.lima

As cidades se organizam, ao longo do tempo, como espaços de inovação. Através de conflitos e embates diários, o espaço urbano se transforma, carregando complexidades e problemáticas como suas principais características. Refletir sobre esta dinâmica que constrói a vida urbana é o tema da exposição “Cidade Gráfica”, aberta ontem no Itaú Cultural, em São Paulo. 

A partir de intervenções de design gráfico nas cidades sob a ótica crítica, criativa ou poética, a mostra reúne 40 trabalhos de 36 artistas e coletivos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Pará, Bahia, além de Paris e Mios, na França.

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Os trabalhos expostos estão adaptados aos mais variados suportes, entre livros, cartazes, fontes, pesquisas acadêmicas e peças gráficas, que navegam no limite entre o design gráfico e as artes visuais. Com curadoria dos designers Elaine Ramos, Celso Longo e Daniel Trench, foram pinçados projetos após investigação realizada em campo por várias cidades do Brasil. “Na pesquisa, que durou mais de seis meses, percebemos que a cidade demanda uma série de questões que provocam os trabalhos de design a trazer luz para elas. O curioso é que o designer é o profissional que apresenta soluções aos clientes, mas nesse caso sua contribuição acontece também a partir do questionamento”, explica um dos curadores Daniel Trench, professor de Design Visual da ESPM.

A ideia da mostra surgiu a partir do congresso da Alliance Graphique Internationale (AGI) — associação internacional de designer da qual os três curadores da mostra são membros — que aconteceu no Brasil este ano. “Queríamos reunir um panorama da produção de designer hoje para o congresso, mas por uma questão de agenda tivemos que adiar. Então, começamos a pensar em qual seria a relevância de uma exposição de designer e qual poderia ser a sua contribuição. A partir dessa reflexão, o tema da cidade veio em seguida”, afirma Daniel Trench.

Entre os trabalhos expostos está “Qual Ônibus Passa Aqui?”, projeto de Marcelo Zocchio e Mariana Bernd, que denuncia a falta de informações, substituídas por publicidade, nos pontos de ônibus em São Paulo. A dupla colou sobre as chamadas publicitárias veiculadas nestes espaços públicos um cartaz com a pergunta que dá nome ao trabalho, e fez dessa ação um ensaio fotográfico. Persistiu com o questionamento por mais de 13 anos, sem ver o problema resolvido.

“Delegamos ao poder público o papel de mediador dos espaços urbanos e ficamos passivos em relação às ações, esperamos sempre que o Estado resolva. A proposta de mostrar esses projetos é também expor que a atuação das pessoas na cidade pode ser mais proativa”, acrescenta o curador.

Também discutindo os usos do espaço urbano, “Remoções Forçadas”, obra do estúdio Radiográfico da dupla Olivia Ferreira e Pedro Garavaglia, revela crítica e poeticamente a remoção forçada e truculenta, de 19 mil famílias de pontos estratégicos da cidade carioca devido às obras urbanas impulsionadas pela Copa do Mundo.

No mesmo sentido em “Eu <3 Camelô”, do coletivo Opavivará!, uma série de oito cartões-postais distribuídos nas praias, com imagens que estampavam retratos de ambulantes junto ao slogan da campanha, criada contra a limitação da atuação dos comerciantes nas praias, imposta pela prefeitura. “Acredito que a mostra venha em boa hora, vivemos um momento de ebulição política”, conclui Daniel Trench. Mariana Pitasse

ONDE ASSISTIR

A mostra está em cartaz até 04/01 no Itaú Cultural em SP. No dia 26/11, às 20h, haverá um debate sobre os usos da cidade, com os três curadores, Celso Longo, Daniel Trench e Elaine Ramos, e o designer João de Souza Leite.

O lado ‘professor pardal’ do chef Ferran Adrià?

“Criatividade é não copiar.” A frase do renomado chefe francês Jacques Maximin, é posta como a base para a transformação de um campo de mini golfe à beira da praia em um dos mais disputados restaurantes do mundo, o elBulli. Foi ouvida pelo chef Ferran Adrià em 1987, ano em que ele abriu o elBulli, dando início a uma pequena revolução na gastronomia mundial. A história está sendo exibida, com documentos, ferramentas e material audiovisual no Espacio Fundacion Telefónica, na Gran Via, em Madri. A ideia é contar como o investimento em inovação teve papel preponderante na história do restaurante, que cobrava € 300 pelo menu degustação, com cerca de 50 pratos, a ser apreciado em quatro horas.

Adrià reservava 20% da receita do elBulli para inovar. Os recursos eram gastos nos seis meses em que restaurante ficava fechado, período em que o chef e sua equipe se concentravam em um apartamento em Barcelona — mais tarde, na Oficina elBulli — para criar o menu do ano seguinte. Nesse período, não eram desenvolvidos apenas os pratos, mas novas tecnologias e ferramentas gastronômicas, como o “ravióli que se vai”, feito com uma película transparente japonesa, ou a plancha de nitrogênio líquido (equipamento usado na gastronomia molecular) para congelar ingredientes já à mesa. O elBulli fechou as suas portas julho de 2011, mas Adrià segue à frente de seu novo desafio: criar a Bullipidia, uma enciclopédia online colaborativa de gastronomia, em parceria com a Telefónica, e tocar os projetos da elBullifoundation.

As ferramentas e acessórios, criados com a ajuda de designers contratados especialmente para materializar os pratos imaginados pelo chefe catalão, estão expostas na mostra, assim como documentos, livros e um vídeo que mostra as reações do empresário italiano Bob Noto e sua mulher durante as quatro horas de degustação do menu. Além de colheres e bandejas especialmente desenhadas para os pratos do elBulli.

Ao todo Adrià e sua equipe criaram 1846 pratos, número que homenageia a data de nascimento de Auguste Escoffier, considerado o pai da cozinha contemporânea francesa.

Inaugurada no fim de outubro, fica em cartaz até o início de março de 2015. É a segunda mostra sobre os bastidores do aclamado restaurante da Costa Brava espanhola e, provavelmente, não será exibida em outros locais. Pelo menos, não com o mesmo formato. Assim como no elBulli, onde o menu era renovado a cada estação, Adrià prefere sempre as novidades. Nicola Pamplona

ONDE ASSISTIR

‘Ferran Adrià: Auditando el Proceso Creativo’
Espacio Fundación Telefónica, na Gran Via, 28, em Madri. Até 15 de março de 2015

NOTAS

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