Por monica.lima

São Paulo - Do deboche das músicas de teatro de revista, cafés cantantes e chopes berrantes dos últimos anos do Império à bronca social do rap dos anos que antecederam a primeira vitória do presidente Lula em uma eleição presidencial, em 2002. Esse é o caminho percorrido na pesquisa feita pelo jornalista Franklin Martins, em um trabalho que relaciona a política com as músicas de suas respectivas épocas. O resultado desse trabalho — “Quem foi que inventou o Brasil?”, nome inspirado em marchinha de Lamartine Babo — começa a ser apresentado em uma exposição que será aberta amanhã no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e nos dois primeiros volumes da série de três livros em que ele aborda o assunto, e que serão lançados na próxima segunda-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, também na capital paulista. O terceiro deve ser lançado no começo de agosto.

Para montar esse mosaico, das letras de músicas com conteúdo político, o autor pesquisou mais de mil canções, algumas delas já publicadas na página do projeto na internet (quemfoiqueinventouobrasil.com). Aquelas que estão em domínio público e cujo autor autorizou a inclusão foram divulgadas na íntegra, das demais, são apresentados apenas trechos, para respeitar a legislação sobre o direito autoral. Uma delas, “Mamãe, vai dizer ao papai”, é recitada pelo autor. O primeiro volume trata do início da República, em 1889, até o Golpe de 1964. O segundo, da resistência à ditadura até a redemocratização, em 1985. O terceiro vai até 2002. As músicas dos dois primeiros períodos já estão no site. A exposição, que depois segue para Rio e Brasília, engloba todo período.

Martins conta que a pesquisa musical começou por acaso, em 1997, quando criou uma seção em seu site para divulgar trechos de discursos e músicas relativas à política. “Queria que as pessoas ouvissem trechos de discursos, até para conhecer a voz de políticos como Getúlio Vargas e Carlos Lacerda, por exemplo”, conta. Com a inclusão de músicas, o jornalista conta que passou a ter contato com vários pesquisadores profissionais e amadores sobre o tema. A partir de sugestões deles e do acesso a arquivos virtuais como o do Instituto Moreira Sales e da Fundação Joaquim Nabuco, o projeto começou a ganhar uma forma. “Era um hobby e depois virou cachaça. E agora virou livros, site e exposição”, brinca.

Na seleção das músicas, ele optou por aquelas que foram compostas no calor dos fatos que retratavam. O marco da República foi escolhido também porque a indústria fonográfica chega ao País, poucos anos depois, em 1902. Na primeira música selecionada, “As laranjas da Sabina”, a letra do dramaturgo Arthur Azevedo foi escrita a partir de uma manifestação de estudantes contra a proibição a uma mulata de vender suas frutas na porta da Universidade de Medicina do Rio. A música acabou se tornando um símbolo no combate ao Império. Além de momentos importantes, como a entrada do Brasil na II Guerra e a Revolução de 1930, e homenagens ou críticas a personagens de destaque da política no Brasil e até mesmo internacional — caso da marchinha “A cara do fuhrer”, cantada por Isaura Garcia —, as letras retratam situações socioeconômicas do período em que foram compostas, como a exaltação da figura do trabalhador em relação ao malandro, política do governo Vargas.

Sobre a época da ditadura, o jornalista destaca as canções de protesto do começo dos anos 1960 e, com o aperto da censura a partir de 1968, as letras de duplo sentido usadas para driblar os censores. “Existem também músicas que não foram compostas com o intuito de serem políticas, mas ganharam essa conotação pela interpretação dada pelos ouvintes quando foram gravadas”, comenta. Ele cita o exemplo de uma música chamada “Meu pequeno amigo” que fazia referência ao desaparecimento do menino Carlinhos, em 1973, no Rio. “A letra falava desse caso que chocou o Brasil, mas podia ser cantada também como uma denúncia dos desaparecimento de militantes que se opunham ao regime ditatorial”, conta.

Uma das descobertas foi a presença de letras políticas em quase todos os ritmos, inclusive a música caipira. “Só a Bossa Nova não tem, por ter durado pouco, mas alguns de seu expoentes, como Carlinhos Lyra, Vinícius de Moraes e Sérgio Ricardo, compuseram letras com esse conteúdo”, diz. Martins destaca também a importância da música dos guetos nos anos 1990, como o rap, o funk e o sambareggae. “O rock dos anos 1980, falava muito de liberdade e injustiça social, depois a música de classe média entra em desalento. É quando surge uma música que retrata uma revolta daqueles cansados de sofrer a exclusão social e violência policial. Descreve o movimento que leva à vitória do Lula em 2002”, analisa.

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