Instituição vai pedir abertura de inquérito contra vice de Bolsonaro por crime de racismo

General da reserva Hamilton Mourão (PRTB) atribuiu 'indolência' a indígenas e 'malandragem' a africanos para explicar a sociedade brasileira

Por Beatriz Perez

General da reserva Hamilton Mourão
General da reserva Hamilton Mourão -

Rio - A associação Educafro anunciou que vai pedir abertura de inquérito nesta sexta-feira, em Caxias do Sul, perante o Ministério Público de Rio Grande do Sul para apurar crime de racismo contra o candidato a vice-presidente da República, general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), da chapa do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

A associação nacional tem como missão prioritária promover a inclusão da população negra no ensino superior, e também luta por políticas públicas de combate ao racismo institucional. O diretor Executivo Frei David informou que a instituição decidiu combater todas as manifestações racistas. É a primeira vez que a entidade aciona Ministério Público contra um candidato.

"Nós entendemos que o Brasil atravessa uma fase muito delicada, onde o racismo está sendo a resposta dos fracos. Nós queremos mostrar que o povo negro decidiu passar a responder a todo ato racista à altura, com atitudes firmes e corajosas."

Frei David disse que há uma rede nacional articulada para vigiar toda propaganda política e reagir a todo ato racista. 

"As declarações de Mourão são extremamente preconceituosas. Pedimos que ele faça um curso antirracista intensivo de cem horas." 

Na segunda-feira, Mourão disse que o Brasil herdou a cultura de privilégios dos ibéricos, a indolência dos indígenas e a malandragem dos africanos. A declaração foi feita em um evento em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, quando o candidato a vice falava sobre as condições de subdesenvolvimento do país e da América Latina.

"Ainda existe o famoso ‘complexo de vira-lata’ aqui no nosso país, infelizmente", disse Mourão. "Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem. Nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano. Então, esse é o nosso cadinho cultural.", disse na ocasião.

Um dia após a declaração, Mourão reforçou que a fala era sobre herança cultural do país. "O contexto que coloco é da herança cultural, tendo como base estudiosos gabaritados da nossa nacionalidade. Esse contexto trouxe heranças positivas e negativas, sem distinção de cor e raça, para todos os brasileiros", disse.

O advogado Marcello Ramalho vai protocolar, por meio do escritório de Advocacia Bergher & Mattos Advogados Associados, um pedido de abertura de inquérito perante o MP-RS para apurar crime de racismo. "Ao vociferar qualidade negativa do negro na composição cultural do povo brasileiro, (Mourão) traz a tona uma aversão aos seus valores e culturas, manifestando em tese um racismo não apoiado em bases biológicas, mas sim, numa incompatibilidade entre estes valores e as que sustentam a chamada civilização ocidental, ao qual o Brasil está embutido."

A associação que pede abertura de inquérito disse em nota que o racismo cresce na sociedade brasileira. "A Comunidade Negra não vai mais aceitar calada, chorando para dentro de seu corpo - machucado e espancado por 518 anos de escravidão, exploração e marginalização - este racismo que cresce assustadoramente."

A instituição diz que quer alertar à sociedade brasileira de que o acesso do povo negro às universidades está fazendo surgir uma nova geração que trabalhará com afinco por direitos iguais. Segundo a ONG, esta nova geração está impulsionando a EDUCAFRO para cobrar direitos e respeito por parte de todos os seguimentos que formam a sociedade brasileira.

"Sofremos porque não tivemos politicas públicas, a exemplo do que tiveram os imigrantes europeus pobres que, fugindo da fome que assolava toda Europa, vieram e foram acolhidos pelo Brasil."

A Educafro reforça que o combate ao racismo não é só da população negra, mas também 'de todos os brancos que tem ética e senso de justiça'.

"Contamos com a solidariedade dos imigrantes conscientes que, ao chegarem no Brasil, encontraram portos, palácios, igrejas, estradas, conventos, belos monumentos construídos com o suor dos injustamente escravizados - o povo negro", diz a nota. 

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