'Meu pessoal tá aí com você?', diz entregador de propina a amigo de Temer

PF incluiu quatro áudios em um relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal que investiga recebimento de propina da Odebrecht pelo presidente Michel Temer; confira as transcrições

Por O Dia

Presidente Michel Temer
Presidente Michel Temer -

Rio - A Polícia Federal incluiu quatro áudios em um relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga recebimento de propina da Odebrecht pelo presidente Michel Temer. Os áudios foram entregues pelo delator e doleiro Alvaro Novis no último dia 30 e contêm diálogos entre entregadores de dinheiro a serviço da empresa e o coronel João Baptista Lima Filho, amigo do presidente Michel Temer. Todos os áudios correspondem a ligações feitas entre a Hoya Corretora, de Novis, e o telefone de João Baptista. Confira as quatro transcrições ao longo deste texto.

No relatório final do inquérito sobre repasses de R$ 10 milhões da Odebrecht para integrantes do MDB, a Polícia Federal concluiu pela existência de indícios de que o presidente Michel Temer cometeu crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O documento foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira e também indica a prática dos mesmos crimes pelos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Minas e Energia). Outro citado é candidato ao governo de São Paulo pelo MDB, Paulo Skaf. No caso dele, a PF aponta indício de prática de caixa 2.

O caso está relacionado com o jantar no Palácio do Jaburu, em 2014, e que foi detalhado nos acordos de delação de executivos da Odebrecht. Então vice-presidente, Temer teria participado do encontro em que os valores foram solicitados.

No caso do presidente, a PF mapeou a entrega de R$ 1,4 milhão para João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, amigo do emedebista. Para sustentar a tese, a PF ouviu o doleiro Alvaro Novis, responsável pelas entregas, e anexou uma conversa em que o próprio Lima aparece em ligação para a empresa de Novis em dias das entrega dos valores. "Pelo teor da conversa, resta inconteste que, ao ser informado sobre a chegada da encomenda, João Baptista Lima Filho informou que estava distante do local, solicitando que o horário fosse remarcado para as 15h, informação que acabou se refletindo nos diálogos mantidos via Skype", diz trecho do relatório.

Confira a transcrição do áudio 1:

João Baptista Lima Filho - Alô.

Interlocutor - Seu João?

João Baptista Lima Filho - Ele mesmo.

Interlocutor - O pessoal está aí. O senhor está no local? Aquela encomenda...

João Baptista Lima Filho - Não, estou fora. Nós não falamos antes. Eu estou com uns compromissos agora, só vou estar lá na minha base por volta das 14h30. Como o senhor vê? Dá pra passar às 14h30?

Interlocutor - Eu vou ver aqui e retorno. O senhor está longe de lá, né?

João Baptista Lima Filho - Estou longe. Estou aqui para o lado de Santo Amaro. Com compromisso que não posso deixar de atender. Então, 14h30, 15h é que eu estou chegando lá na minha base.

Interlocutor - Então, vou ver se consigo marcar para as 15h.

João Baptista Lima Filho - O senhor faz favor e me dá uma ligada. Obrigado!

A ligação para a empresa do doleiro foi às 10h25 de 19 de março de 2014. Às 11h35, Lima ligou para um celular em nome de Temer e, às 11h37, o amigo de Temer recebeu outra ligação da empresa do doleiro responsável pelas entregas.

Confira a transcrição do áudio 2:

João Baptista Lima Filho - Alô.

Interlocutor - Seu João?

João Baptista Lima Filho - Ele mesmo.

Interlocutor - Ah, sim. Bom dia.

João Baptista Lima Filho - Tudo bem.

Interlocutor - Bem, hoje, então, aquela reunião foi adiada e vai ser entre 3 e 5 horas. Das 15h às 17h.

João Baptista Lima Filho - Ok, estou por lá nesse horário.

Interlocutor - Tá. Só que nos temos três etapas dessa reunião, que vai ser quinta e sexta-feira. Agora quinta e sexta. Eu queria ver com o senhor se pode ser entre 10 e 12 horas, na quinta e na sexta?

João Baptista Lima Filho - Veja se vocês podem me fazer isso daí às 12 horas. Eu faço de tudo pra estar as 12 horas. É possível?

Interlocutor - De 12 vão marcar, então, porque sempre tem que dar um espaço de tempo, vamos marcar de 12 a que horas?

João Baptista Lima Filho - 12 às 13h, tudo bem?

Interlocutor - 12 às 13, nos dois dias. Então, está combinado.

João Baptista Lima Filho - Combinado. Um abraço.

Interlocutor - Combinado. Até logo. Tchau.

Logo após esta conversa, às 11h51, Lima voltou a ligar para Temer com quem falou cerca de 5 minutos.

Às 15h54 houve outra ligação entre um interlocutor identificado como Márcio e coronel Lima.

Confira a transcrição do áudio 3:

João Baptista Lima Filho - Alô?

Márcio - João?

João Baptista Lima Filho  - Ele.

Márcio - É o Márcio aqui. Tudo bem?

João Baptista Lima Filho - Tudo bem.

Márcio - Meu pessoal tá aí com você?

João Baptista Lima Filho - Tá aqui. Ok... e conforme combinamos.

Márcio - Ah tá. Porque eles disseram que você não sabia o nome, né?

João Baptista Lima Filho - Então, não houve um nome. Só ficou nessa base do ok e nada mais. ok e... só isso.

Márcio - Tá. OK! Beleza.

João Baptista Lima Filho - Ok. Reunião confirmada. Só isso.

Márcio - Tá. Muito obrigado.

João Baptista Lima Filho - Obrigado a você. Tchau.

Márcio - Um abraço. Tchau. 

Dias depois, quando, segundo a PF, as entregas foram concluídas, o interlocutor identificado como Márcio ligou para o coronel Lima para confirmar se estava tudo certo.

Confira a transcrição do áudio 4:

João Baptista Lima Filho - Alô.

Márcio - João?

João Baptista Lima Filho - Ele.

Márcio - Opa, aqui é o Márcio, tudo bom?

João Baptista Lima Filho - Tudo bem, Márcio.

Márcio - Eu recebi um recado aqui. Sinceramente, não estou entendendo, acho que a pessoa está se expressando mal aqui, eu não estou entendendo. Nós tivemos 3 reuniões, quarta, quinta e sexta. Fiz uma na quarta, fiz uma na quinta e na sexta você ia demorar e me pediu que entregasse ao Silva.

João Baptista Lima Filho - Isso. Isso.

Márcio - Então, as três reuniões foram concretizadas.

João Baptista Lima Filho - Tudo bem. Tem alguma previsão pra mais alguma coisa ou não?

Márcio - Não. Ainda não tem informação nenhuma. Mas essas três foi tudo certinho, né?

João Baptista Lima Filho - Foi.

Márcio - É que o pessoal tá se expressando mal aqui, tá fazendo uma confusão do cacete. 

João Baptista Lima Filho - Tudo bem. A última, de sexta-feira, em que foi entregue aí ao Silva as atas, elas não foram iguais às atas anteriores, né? Ficou um pouco abaixo.

Márcio - É! Um pouquinho abaixo, o número era quebrado.

João Baptista Lima Filho - Tá certo. Tá certo...

Márcio - Tá bom?

João Baptista Lima Filho - Tá entendido, então.

Márcio - Ok.

João Baptista Lima Filho - Eu agradeço a tua atenção.

Márcio - Um abração. Tchau, tchau.

João Baptista Lima Filho - Outro. Obrigado. Um abraço. Tchau.

Além na entrega no dia 19, a PF mapeou outras duas realizadas nos dias 20 e 21. Sobre Skaf, o relatório da PF aponta que o candidato recebeu R$ 5.169.160,00 em 2014 por meio de Duda Mendonça como forma de custear gastos de campanha eleitoral não declarados.

O coronel Lima chegou a ser preso pela PF em março deste ano no âmbito do inquérito que apura irregularidades no decreto dos portos, do presidente Michel Temer.

O Palácio do Planalto afirmou na semana passada que a conclusão do inquérito "é um atentado à lógica e à cronologia dos fatos". "A investigação se mostra a mais absoluta perseguição ao presidente", diz a nota. Nesta segunda-feira, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República disse que 'quem trata desse assunto são os advogados do presidente'. A reportagem não conseguiu contato com a defesa até a publicação desta matéria. O espaço está aberto para sua manifestação.

O ministro Eliseu Padilha disse que não comentaria. Moreira Franco informou que não solicitou valores à Odebrecht e que "as conclusões da autoridade policial se baseiam em investigação marcada pela inconsistência". Skaf afirmou que todas as doações estão registradas na Justiça Eleitoral.  

*Com Estadão Conteúdo

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