Governo Bolsonaro começa a tomar feição e se mostra repleto de ideologias

Ultraliberal, 'antiglobalista', defensor da propriedade privada e contra a 'doutrinação de esquerda'

Por DIRLEY FERNANDES

Os futuros ministros Araújo e Vélez Rodrigues, 'olavistas', o ruralista Nabhan Garcia e Paulo Guedes, defensor da 'Grande Sociedade Aberta'
Os futuros ministros Araújo e Vélez Rodrigues, 'olavistas', o ruralista Nabhan Garcia e Paulo Guedes, defensor da 'Grande Sociedade Aberta' -

Rio - À medida que o governo Bolsonaro toma feição, com a definição de nomes para postos-chave, mais clara se torna uma contradição de nascença, proposital ou não, mas nada surpreendente. Em 2 de outubro, o então candidato disse, via Twitter, que “a questão ideológica é tão ou mais grave que a corrupção no Brasil. São dois males a ser combatido” (sic). No entanto, o time que o capitão está convocando é uma espécie de seleção de representantes de ideologias que, ao longo da era petista, estiveram bem distantes do poder político, pelo menos na esfera política federal. São correntes ideológicas que representam o conservadorismo político e social e o liberalismo econômico, com tintas de exotismo. “Todas as escolhas, nas diferentes áreas, têm sido profundamente ideológicas; institucionais, apenas as dos ministros militares”, define o cientista político Paulo Baía.

Na quinta-feira,foi anunciado o nome do segundo ministro que representa o pensamento do jornalista, astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho. No mesmo dia, um pecuarista ganhou o cargo de secretário especial de Assuntos Fundiários, criado especialmente para ele, com status de ministério. Será o representante do pensamento da União Democrática Ruralista (UDR). Já a Educação foi entregue a um defensor da ‘Escola sem Partido’, movimento que prega o fim da “doutrinação de esquerda” que enxergam nas escolas. No mesmo dia em que a escolha foi anunciada, o presidente eleito declarou que “Escola é lugar de se aprender Física, Matemática, Química e fazer com que no futuro tenhamos um bom empregado, um bom patrão e um bom liberal. Esse é o objetivo da Educação”.

A ideologia liberal, que prega que o Estado entregue às “forças do mercado” a direção da Economia, na crença da capacidade de autorregulação dessas forças, é o cerne da “Escola de Chicago”, corrente à qual são filiados todos os novos comandantes da Economia, inclusive, claro, o ‘Posto Ipiranga’ Paulo Guedes.

A 'NOVA DIREITA'

Olavo de Carvalho é um jornalista e astrólogo que, a partir dos anos 1990, se tornou um "filósofo" anticomunista, depois de, nos anos 1960, ter sido membro do PCB. Ele é o pai de teses que conquistaram fãs nos tempos petistas, levando a um renascimento do conservadorismo, cujos seguidores foram classificados como "Nova Direita". Entre essas teses, está a rejeição ao globalismo - a noção de que há uma tentativa deliberada de enfraquecer as nações comandadas por organizações de esquerda, como a ONU e ONGs financiadas por milionários. Para os antiglobalistas, as universidades e a imprensa brasileira estão dominadas pela ideologia de esquerda, que sufoca o indivíduo e enfraquece a tradição judaico-cristã.

Carvalho é guru de dois dos ministros mais importantes do governo Bolsonaro: o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que foi, segundo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), indicado pelo próprio filósofo. O nome foi ainda endossado pelo assessor do PSL para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, que ministra cursos de 'Introdução á Filosofia Política de Olavo de Carvalho'.

O segundo 'olavista' da Esplanada é o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que, em seu blog, disse que a sua indicação também partiu do filósofo conservador. O professor nascido na Colômbia já disse que o MEC implantou uma visão "destinada a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em suma, do patriotismo".

ESCOLA SEM PARTIDO

A presença de Rodriguez na Esplanada também representa uma vitória do movimento 'Escola sem partido', o qual, em seu blog, Rocinante, o novo ministro chama de "providência fundamental". Segundo ele, a educação familiar não pode ser "substituída pelo Estado".

'Escola sem Partido' é o nome de um conjunto de propostas que pretende estabelecer um sistema de vigilância dos professores pelos alunos. Na prática, a proposta, que será votada em comissão na Câmara nesta semana com grandes chances de aprovação, obriga a afixação em todas as salas de aula do Ensino Fundamental e Médio de um cartaz com com condutas a serem seguidos pelos docentes, como o de não cooptar alunos "para nenhuma corrente política, ideológica ou partidária". A proposta, segundo Roberto Catelli, da ONG Ação Educativa, representa uma ideologia "de fundo autoritário". "É uma ameaça ao diálogo democrático em sala".

UDR

A União Democrática Ruralista (UDR) foi criada em 1985 com o princípio de que a propriedade privada é "intocável". A organização representou a a reação dos latifundiários contra as desapropriações para reforma agrária no governo Sarney. O uso da força contra invasões de terra era defendido pela entidade, que caiu no ostracismo na década seguinte. Agora, o presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Nabhan Garcia, se tornará secretário de Assuntos Fundiários e terá o Incra sob seu comando. Ele já anunciou que invasão de terra é "crime" e "formação de quadrilha". "Vai ter que acabar",sentenciou.

Já a Economia será comandada pela 'Escola de Chicago', doutrina econômica que defende a necessidade de deixar "o mercado" seguir seu curso, sem interferência do Estado, o que vai redundar em maior eficiência, rumo à "Grande Sociedade Aberta".

Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, Campos Netto, que será presidente do Banco Central, além dos próximos presidentes da Caixa e do Banco do Brasil, são adeptos da doutrina. "Não há nada de neutro ideologicamente, nem nesse governo, nem em qualquer outro", finaliza Paulo Baía.

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Os futuros ministros Araújo e Vélez Rodrigues, 'olavistas', o ruralista Nabhan Garcia e Paulo Guedes, defensor da 'Grande Sociedade Aberta' Ag. Brasil

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