Bolsonaro diz que influenciou desistência do Brasil em sediar evento do clima da ONU

Itamaraty alegou como motivo "dificuldades orçamentárias" e o processo de transição de governo

Por O Dia

Segundo a organização, desmatamento subiu 39% de agosto do ano passado a julho deste ano
Segundo a organização, desmatamento subiu 39% de agosto do ano passado a julho deste ano -

São Paulo - O presidente eleito Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira que teve participação na decisão do governo brasileiro de retirar sua candidatura para sediar a COP-25 (Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas), destinada a negociar a implementação do Acordo de Paris, que ocorrerá de 11 a 22 de novembro de 2019. O Itamaraty informou na terça-feira (24) sobre a decisão ao Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima da Organização das Nações Unidas. Bolsonaro disse que queria evitar controvérsia entre o seu governo e setores ambientalistas sobre a criação do corredor ecológico internacional Triplo A e ainda alegou restrições orçamentárias.

"Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro (Ernesto Araújo, indicado para o Ministério das Relações Exteriores), eu recomendei para que evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque, eu peço que vocês (jornalistas) nos ajudem, está em jogo o Triplo A. Esse acordo, que é uma grande faixa, que pega a (Cordilheira dos) Andes, Amazônia, Atlântico, de 136 milhões de hectares, ao longo da calha dos rios Solimões e Amazonas, que poderá fazer com que percamos nossa soberania nessa área. Se isso for o contrapeso, nós teremos uma posição que pode contrariar muita gente, mas vai estar de acordo com o pensamento nacional. Então, não quero anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil, além dos custos, que seriam, no meu entender, bastante exagerados tendo em vista o déficit que temos no momento", disse o presidente eleito.

A ideia do corredor ecológico Triplo A propõe a construção de um corredor ecológico ligando a região da Cordilheira dos Andes ao Atlântico, com uma extensão de mais de 200 milhões de hectares. O projeto envolveria a região amazônica de oito países (Colômbia, Brasil, Peru, Equador, Venezuela, Guiana Francesa, Guiana e Suriname), afetando mais de 30 milhões de pessoas, incluindo 385 povos indígenas. No Brasil, abrangeria os estados do Amazonas, de Roraima e do Amapá, representando 62% do território geral do corredor.

Questionado se a decisão de suspender a COP-25 poderia trazer prejuízos à imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro voltou a criticar a atual política ambiental e defendeu uma mudança de rumo no setor. "O país que mais preserva no mundo somos nós, agora não pode uma política ambiental atrapalhar o desenvolvimento do Brasil, nós queremos uma política ambiental de verdade. Todos nós queremos preservar o meio ambiente, mas não dessa forma que está aí. Hoje, a economia, quase está dando certo apenas na questão do agronegócio e eles estão sufocados por questões ambientais, que não colaboram em nada para o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente. Isso é um contraponto, mas uma verdade, por isso a demora na escolha do ministro do Meio Ambiente", disse.

O Brasil anunciou nesta terça-feira que vai retirar sua candidatura para sediar em 2019 a Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP-25. O Itamaraty alegou como motivo "dificuldades orçamentárias" e o processo de transição de governo. Em janeiro, assume o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), crítico do Acordo de Paris, contra as mudanças climáticas

Segundo o comunicado do governo, o país "se viu obrigado" a retirar a candidatura por causa das atuais "restrições fiscais e orçamentárias".

Na campanha, Bolsonaro disse que poderia sair do pacto climático por uma questão de "soberania". Segundo ele, o país teria de "pagar um preço caro" para atender às exigências do acordo. Isso motivou reações contrárias de defensores ambientais e entidades do agronegócio, que temem retaliação de importadores nesse cenário. A Conferência do Clima será realizada este ano na Polônia, no mês de dezembro.

*Com Estadão Conteúdo e Agência Brasil

 

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