Mandetta foi demitido por Bolsonaro em meio à maior pandemia que assola o mundo - Evaristo Sa / AFP
Mandetta foi demitido por Bolsonaro em meio à maior pandemia que assola o mundoEvaristo Sa / AFP
Por MARTHA IMENES
Ao chegar para sua despedida do Ministério da Saúde, e sob aplausos dos presentes, o ministro Luiz Henrique Mandetta fez um discurso emocionado e agradeceu a todos que trabalham no ministério, pessoas que já conhecia e que conheceu ao assumir a pasta. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta foi demitido pessoalmente pelo presidente Jair Bolsonaro. E deu o recado a todos que participaram da coletiva: "Não tenham medo." Neste momento entrou o secretário Wanderson Oliveira, que foi muito aplaudido pelos presentes. Mandetta, afirmando que construiu a melhor equipe, pediu que todos deem apoio ao novo ministro. No seu lugar assumirá o oncologista e empresário Nelson Teich, nome que foi defendido pelo secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten.

Em seu perfil no Twitter Mandetta escreveu: "Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde. Quero agradecer a oportunidade que me foi dada, de ser gerente do nosso SUS, de pôr de pé o projeto de melhoria da saúde dos brasileiros e de planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar."

"Agradeço a toda a equipe que esteve comigo no MS e desejo êxito ao meu sucessor no cargo de ministro da Saúde. Rogo a Deus e a Nossa Senhora Aparecida que abençoem muito o nosso país", escreveu o ex-ministro.

E finalizou: "Ministros passam, o que fica é o trabalho do servidor do Ministério da Saúde", e agradeceu ao trabalho da imprensa.

A retirada do ex-ministro já era esperada desde o início da semana passada. O protagonismo que Mandetta ganhou por liderar a atuação contra a Covid-19 foi um dos pontos que incomodou Bolsonaro.

A recomendação irrestrita do presidente para o uso da cloroquina contra o novo coronavírus, apesar de ainda não haver comprovação científica sobre a eficácia, foi outro fator de faísca.

Mas, mais do que isso, a defesa do agora ex-ministro para que o país siga as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para brecar a proliferação da doença no país gerou atrito com Bolsonaro.

O presidente é a favor da tese de que a economia não pode parar e que apenas uma parcela da população deveria ficar em isolamento. E na apresentação, Teich concordou com Bolsonaro.

Já Mandetta segue a ideia de restrição de circulação de toda a população, o que, segundo a OMS e especialistas do mundo, ajuda a diminuir a quantidade de contaminados. Hoje o Brasil tem 1.924 mortos e 30.425 infectados por coronavírus.

Reações
A Câmara dos Deputados teve reação imediata à demissão de Mandetta. Durante a sessão virtual, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou seu microfone para "deixar sua homenagem" ao colega de partido.

"Aproveito, e tenho certeza que falo em nome da maioria da Câmara dos Deputados, no momento em que o ministro Mandetta anuncia que foi demitido pelo presidente da República, a nossa homenagem à sua dedicação, ao seu trabalho, sua competência, sua capacidade", disse Maia no plenário.

Diversos partidos emitiram notas e fizeram declarações oficiais lamentando a demissão de Mandetta. O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, afirmou que o ministro foi demitido por fazer um bom trabalho. "Ser exonerado do cargo por Bolsonaro é ser 'absolvido pela história'", afirmou o deputado federal e primo de Mandetta, Fábio Trad (PSD-MS). "A saída do ministro representa uma enorme perda para o Brasil", disse o governador do Ceará, Camilo Santana (PT).

Destino selado pela manhã
Em reunião pela manhã, que não foi colocada na agenda oficial da Presidência, o substituto do ministro Luiz Henrique, o oncologista Nelson Teich foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro e alguns ministros.

Segundo fontes, participaram da reunião com Teich os ministros da Casa Civil, Walter Braga Netto; da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos; e da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, além do secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten.

O presidente anunciou oficialmente a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Segundo Bolsonaro, ambos chegaram a um "divórcio consensual" e que também falaram da situação da pandemia do novo coronavírus no País.

Durante os pronunciamentos de Mandetta, mais cedo, e de Bolsonaro, panelaços e gritos de fora Bolsonaro foram ouvidos em várias regiões do país. Mandetta, cabe destacar, tem a popularidade melhor que a do presidente, segundo pesquisa Datafolha, que mostrou que a aprovação do Ministério da Saúde era o dobro da aprovação do presidente Jair Bolsonaro. Segundo o instituto, a pasta foi aprovada por 76% da população, enquanto o presidente recebeu aprovação meros 33%.

"(Foi) uma conversa bastante produtiva, muito cordial, onde nós selamos um ciclo do Ministério da Saúde. Ele (Mandetta) se prontificou a participar de uma transição mais tranquila possível com maior riqueza de detalhes que se possa oferecer", declarou.

A saída de Mandetta ocorre após semanas de divergências entre o presidente e ele. Nos últimos dias, ambos mediam forças com críticas e gestos públicos.