Covid: uma dor incalculável

Números frios da pandemia não dão a dimensão da nossa tragédia e nos distanciam do drama de milhares de famílias

Por Fernando Faria

No último adeus, solidão: trágica realidade da covid
No último adeus, solidão: trágica realidade da covid -
Como definir a dor? Não a física, mas aquela que corrói a alma, aniquila o sentimento que temos de mais precioso e nos arranca dos braços quem mais amamos. Pra sempre! Dor de mãe, de pai, de filho, de irmão, de avó, de neto, de amigo, de olhares que nunca mais vão se cruzar. Nunca mais! Morreram Marias, Paulas, Pedros, Franciscos e tantos e tantos outros. E morreram só, sem direito de sentir pela última vez o calor de quem aquece o coração.
Números desumanizam a nossa tragédia cotidiana da covid-19. Desde 17 de março, passamos a conviver com a frieza dos dados divulgados diariamente, das curvas e dos parâmetros anunciados pelas autoridades de Saúde. Houve muitas trocas no comando, mas os números seguiam lá, implacáveis. Nas últimas 24 horas, foram 10, 100, 500, 1.000 óbitos. Palavra mórbida que tristemente invadiu o nosso dia a dia.
É impossível dar rosto à tragédia. A sua face é invisível, mas cruel! O que são 50 mil vidas perdidas, acumulando-se em anúncios estatísticos, coletivas de imprensa, manchetes de jornais, programas de rádio e TV? Por que reagimos com certa indiferença e muitas vezes incômodo diante das notícias? Por que fugimos? Por que negamos?
Temos um comportamento tão diferente quando algo nos abala de forma pontual e profunda. E os exemplos são tantos. O incêndio no Ninho do Urubu nos tocou a alma. Levou dez meninos cheios de sonhos. Numa comparação com a covid, é como se vivêssemos todos os dias a mesma tragédia por 14 anos... 14 anos! Dia após dia...
QUINZE AVIÕES DA CHAPE
Na escola de Realengo, na Zona Oeste do Rio, um atirador matou 12 garotos — dez meninas e dois meninos com idades entre 13 e 16 anos. De novo, é como se aqueles tiros estivessem sendo disparados desde o fatídico 7 de abril de 2011 e assim seguissem cotidianamente nos aterrorizando até o fim de 2022! Em 25 de novembro de 2016, o voo da Chape caiu na Colômbia: 71 mortos. Já imaginou se houvesse a chance de aquela dor imensa se repetir 15 vezes em apenas 24 horas? Essa é a média de óbitos pelo coronavírus no Brasil nos últimos dias: em torno de 1.000, quase um por minuto. Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho (MG) deixou 270 mortos. Corpos desaparecidos na lama, vidas soterradas. É como se a covid fizesse essa dor se repetir quatro vezes num só dia. Quatro Brumadinhos!
Infelizmente, esses são apenas alguns exemplos do tamanho da nossa tragédia. Não se trata de supervalorizar a dor, mas, sim, de não se desprezar a vida, o bem mais precioso de qualquer um. Sejam Marias, Paulas, Pedros, Franciscos... sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Que não mais chorem tantas mães, pais, filhos, irmãos, avós, netos, amigos... nunca mais!
MUITO ALÉM DOS NÚMEROS DE ALGUMAS DE NOSSAS TRAGÉDIAS
- Desabamento na Muzema
12/4/2019, Rio de Janeiro
24 mortos
Dois prédios construídos irregularmente em área de milicianos desabaram na comunidade do Itanhangá. Outros foram interditados pela Defesa Civil

- Incêndio no Ninho do Urubu
8/2/2019, Rio de Janeiro
10 mortos
O incêndio no CT do Flamengo, em Vargem Grande, ocorreu de madrugada e surpreendeu os meninos das categorias de base dormindo. Três ficaram feridos

- Rompimento da barragem de Brumadinho
25/1/2019, em MInas Gerais
270 mortos
O rompimento da barragem da Vale deixou, além de mortos, centenas de famílias desalojadas, num dos piores desastres ambientais do mundo

- Queda do avião da Chape
28/11/2016, na Colômbia
71 mortos
Avião levava jogadores da Chapecoense para a decisão da Copa Sul-Americana e caiu perto de Medellín por falta de combustível. Seis pessoas sobreviveram

 - Incêndio na Boate Kiss
27/1/2013, em Santa Maria (RS)
242 mortos
As vítimas eram, em sua maioria, jovens. A casa estava superlotada e havia uma série de irregularidades, como as más condições de segurança do local

- Queda do Avião da Air France
1/6/2011, Oceano Atlântico
228 mortos
O voo AF 447 seguia do Rio para Paris. Não houve sobrevivente. As investigações apontaram falhas técnicas e dos pilotos como a causa

- Massacre em escola de Realengo
7/4/2011, Rio de Janeiro
13 mortos
Dez meninas e dois meninos entre 13 e 16 anos foram mortos na Escola Municipal Tasso da Silveira. Ex-aluno, o assassino se matou com a chegada da polícia

- Enchentes e deslizamentos na Região Serrana do Rio
11/1/2011, Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e outros
918 mortos
Uma enxurrada se transformou em tragédia e destruição. Nos municípios de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, 103 pessoas ainda estão desaparecidas

- Acidente com avião da TAM em Congonhas
17/7/2007, São Paulo
199 mortos
O voo 3054 saíra de Porto Alegre, mas, na aterrissagem no Aeroporto de Congonhas, o piloto colidiu com um prédio da própria companhia

- Naufrágio do Bateau Mouche
31/12/1988, Rio de Janeiro
55 mortos
Acidente aconteceu no Réveillon de 1988. Superlotado, o barco de turismo afundou na Baía de Guanabara. Havia 142 pessoas a bordo

- Incêndio no Edifício Joelma
1/2/1984, em São Paulo
187 mortos
Um curto-circuito num aparelho de ar-condicionado causou o incêndio na capital paulista. Mais de 300 pessoas ficaram feridas

- Desabamento do Viaduto Paulo de Frontin
20/11/1971, Rio de Janeiro
29 mortos
A estrutura de um trecho de 50 metros do viaduto caiu após a passagem de um caminhão betoneira de 2,5 toneladas. Dezoito pessoas ficaram feridas

- Incêndio no Gran Circo Norte-Americano
17/12/1961, em Niterói (RJ)
503 mortos
Uma das maiores tragédias da história do país. Setenta por cento das vítimas do incêndio eram crianças. Mais de 800 pessoas ficaram feridas
 

Óbitos já superam em muito os da gripe espanhola

Há 102 anos, o Brasil e o mundo enfrentavam uma pandemia. Calcula-se que a gripe espanhola tenha matado até 50 milhões de pessoas. Entre 1918 e 1919, estima-se que, no país, os óbitos tenham chegado a 35 mil — 15 mil no Rio de Janeiro, então capital federal. A cidade enfrentava momentos de terror. Corpos eram deixados nas ruas e, de tempos em tempos, carroças passavam para recolhê-los e levá-los a cemitérios.
Os principais sintomas eram dor de cabeça, febre e falta de ar. Em poucos dias, o doente morria incapaz de respirar e com o pulmões cheios de líquido. O país conviveu com uma espécie de isolamento involuntário: durante a pandemia de 1918, as grandes cidades ficaram vazias. Quem tinha condições viajava para o interior, onde o número de casos era menor. Bancos, repartições públicas, teatros, bares e tantos outros estabelecimentos fecharam as portas ou por falta de funcionários ou por falta de clientes.
Num mundo ainda muito distante da globalização, a doença chegou ao Brasil em setembro de 1918 trazida pelo transatlântico Demerara, que desembarcou passageiros contaminados em três cidades: Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Em um mês, o país mergulhava numa devastadora epidemia. Eleito presidente da República em 1918, Rodrigues Alves não chegou a assumir: foi contaminado e morreu.
Inicialmente, a gripe espanhola afetou principalmente as classes mais baixas, sobretudo trabalhadores. De acordo com historiadores, o vírus contaminou primeiramente operários dos portos e, depois, chegou às classes mais altas. O maior número de óbitos ocorreu na faixa entre 20 e 40 anos, a que concentrava a maior parte da classe trabalhadora. Responsável pelo comando da Saúde à época, o sanitarista Carlos Seidl negligenciou os efeitos devastadores da doença no começo. Depois, declarou que a gripe poderia não ser controlada pelo Estado, causou enorme pânico e renunciou em outubro de 1918. Deu lugar a Theóphilo Torres, que chamou o médico e biólogo Carlos Chagas para trabalhar na linha de frente de combate à doença.
Chagas assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz e liderou a campanha para combater a gripe espanhola, implementando cinco hospitais emergenciais e 27 postos de atendimento à população em diferentes locais do Rio. Estima-se que entre outubro e dezembro de 1918, período oficialmente reconhecido como pandêmico, 65% da população tenham adoecido.

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