A Fiocruz destacou que é preciso permanecer com o monitoramento para acompanhar se vírus com essas alterações não aumentarão de frequência
A Fiocruz destacou que é preciso permanecer com o monitoramento para acompanhar se vírus com essas alterações não aumentarão de frequênciaJosué Damacena, IOC/Fiocruz
Por O Dia
Em novas pesquisas com amostras do coronavírus coletadas em sete estados do Brasil, cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificaram novas mutações que acendem alerta para novas variantes. Segundo a instituição, com os estudos iniciais ainda não é possível concluir que se tratam de novas linhagens, mas “é preciso permanecer com o monitoramento” para entender se essas mudanças “aumentarão de frequência”. Tais alterações se assemelham ao padrão identificado em outros países, como a África do Sul e o Reino Unido. A Fiocruz destacou ainda a “necessidade urgente de ampliação da vacinação e de implementação de medidas farmacológicas eficazes”.
As alterações foram identificadas na estrutura da proteína Spike, que tem um papel importante na entrada do vírus nas células humanas e é o principal alvo dos anticorpos produzidos pelo organismo para neutralizar a ação do coronavírus. A preocupação, portanto, é de que, com essas mudanças, o vírus se torne mais resistente. A Fiocruz explica que essas mutações “podem dificultar a ligação com anticorpos e, assim, promover o escape imunológico do vírus no corpo humano”.
Publicidade
Com o estudo, foram identificadas onze perdas de cromossomos - chamadas de deleções - na região inicial da proteína Spike e em quatro houve entrada de alguns aminoácidos (inserções). Os novos resultados, detectados a partir da metodologia de sequenciamento genético, são provenientes de amostras coletadas de pacientes de sete estados: Amazonas, Bahia, Maranhão, Paraná, Rondônia, Minas Gerais e Alagoas.
“O novo coronavírus está continuamente se adaptando e, com isso, propiciando o surgimento de novas variantes de preocupação e de interesse com alterações na proteína Spike. No entanto, vale ressaltar que as novas mutações foram, até o momento, detectadas em baixa frequência, apesar de encontradas em diferentes estados. Ainda precisamos dimensionar o impacto deste achado e, sem dúvidas, ampliar cada vez mais o monitoramento genômico”, ressalta a virologista Paola Cristina Resende, do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
Publicidade
Segundo os cientistas, as mutações estão associadas a uma evolução convergente do vírus, já que foram detectadas em diferentes linhagens. As alterações seguem uma tendência que já era observada em outros países e a acumulação em sequência de mutações observadas em território nacional muito se assemelha ao padrão observado na África do Sul.
“As variantes identificadas no Brasil até então não haviam apresentado as deleções e inserções que são comuns nas variantes de outros países, como Reino Unido e África do Sul. Aqui vemos pela primeira vez, que as linhagens brasileiras estão seguindo o mesmo caminho evolutivo das demais variantes de preocupação”, destaca Gabriel Wallau, que integra o Núcleo de Bioinformática da Rede Genômica e é pesquisador do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz-Pernambuco).
Publicidade
Para o pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz-Bahia), Tiago Gräf, “a pandemia de Covid-19 em 2021 no Brasil provavelmente será dominada por esse novo e complexo conjunto de variantes”. “Esta nova geração de variantes pode ser menos susceptível à neutralização dos anticorpos que suas linhagens parentais P.1, P. 2 e B.1.1.33”, completa.
A Fiocruz também ressaltou a necessidade urgente de ampliação da vacinação e de implementação de medidas farmacológicas eficazes, para que a transmissão do coronavírus seja reduzida e o surgimento de novas variantes seja contido. A instituição aponta o investimento na vigilância genômica e em estudos de eficácia das vacinas para as novas variantes como medidas fundamentais.

A pesquisa foi realizada pela Rede Genômica Fiocruz, com participação de pesquisadores de diversos estados do país. O estudo foi liderado pelos Laboratórios de Vírus Respiratório e do Sarampo e de Aids e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz, Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz-Bahia), Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz-Amazônia), Instituto Aggeu Magalhaes (Fiocruz-Pernambuco) e Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Publicidade
Também colaboraram com o trabalho: Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e Laboratórios Centrais de Saúde Pública do Amazonas (Lacen-AM), Maranhão (Lacen-MA), Alagoas (Lacen-AL), Minas Gerais (Lacen-MG), Paraná (Lacen-PR) e Bahia (Lacen-BA).