Por monica.lima

Rio - Desde janeiro de 2010 o brasileiro não consumia tão poucos bens, revela a pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em março, prevaleceu a insatisfação no mercado, sobretudo com os duráveis - como carros e eletrodomésticos da linha branca. Para 37,1% dos entrevistados, o volume de compras se mantém no mesmo patamar do ano passado, sem avanços. Para 32%, está inferior, enquanto 30,3% responderam ter consumido mais do que em igual período de 2013. Assim, o índice de nível de consumo atual, um dos componentes da pesquisa, atingiu 98,3 pontos. Toda vez que está abaixo 100 pontos, indica insatisfação dos consumidores.

Especialmente o item "momento para duráveis" da pesquisa, em março, recuou 8,9% comparado a fevereiro, e 13,5% em relação a igual mês de 2013. A avaliação de Bruno Fernandes, economista da CNC, é de que houve uma mudança no perfil de consumo do brasileiro neste ano, comum a clara mudança da preferência por bens não duráveis, como alimentos, e por serviços, no lugar dos duráveis.

A Comerciárias Roberta Ribeiro (21 anos)%2CDenise Minervino (35) e Sarita Amorim (30)Maíra Coelho / Agência O Dia

A análise do economista coincide com o relato da vendedora carioca Sarita Amorim, de 30 anos. Mãe de dois filhos, ela diz ter optado por postergar a compra de um ar-condicionado em nome da estabilidade do orçamento da família, em um momento em que percebe uma corrosão maior da renda pela inflação. Ela diz ainda que, para não perder o controle dos custos no período de férias escolares dos filhos, guardou parte do décimo-terceiro salário e da comissão das vendas para bancar os gastos com telefone, TV a cabo e internet. "Não viajamos, porque eu trabalho. Tentamos gastar o mínimo possível, mesmo com as crianças em férias".

O depoimento coincide com o cenário revelado pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), relativa ao mês de janeiro, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados demonstram que os serviços, sobretudo os prestados às famílias - como telefonia e comunicação, exemplificados pela vendedora - passam por um bom momento, sem indicativos de que perderão o ritmo nos meses seguintes. "Há uma boa perspectiva para fevereiro, levando em conta os dados do emprego para o mês, divulgados na segunda-feira pelo Caged (dados do Ministério do Trabalho sobre o emprego formal)", ressalta o economista da FGV/Ibre Silvio Salles.

A receita do setor de serviços como um todo cresceu 9,3% em relação a igual mês do ano anterior, embora, descontada a inflação, a expansão tenha sido, de fato, de 1,1%, a maior desde abril de 2013, de acordo com cálculo da CNC. Especialmente a receita nominal da prestação de serviços às famílias (sem descontar a inflação) cresceu 12,1% e a de serviços de alojamento e alimento, dentro desse grupo, avançou 12,3%. Nem mesmo o aumento da taxa básica de juros, a Selic, que ocorre desde abril do ano passado, foi capaz de encolher a demanda, ressaltou o técnico do IBGE Roberto Saldanha.

As aposentadas Nizete Ferreira, de 70 anos, e Edila Lopez, de 62, afirmam ter dificuldade em perceber o peso real da inflação sobre a economia. "Os juros estão lá em cima e o mercado está mais caro do que nunca", reclamam. Segundo elas, mesmo cortando o que consideram supérfluos - como roupas e calçados - há alguns itens dos quais não abrem mão. "Frutas, verduras e legumes aumentaram bastante. A gente tenta cortar em algumas coisas, mas não dá para fazer economia com tudo. Comer fora e fazer as unhas no salão são luxos necessários", contam.

Para o professor titular da Faculdade de Economia da UFRJ João Saboia, é possível que o efeito do aumento da Selic sobre os serviços apareça apenas no futuro, considerando a defasagem inerente ao processo de elevação da taxa. Ainda assim, ele avalia que o crescimento do setor não pode ser encarado como um dado negativo, capaz de pressionar ainda mais a inflação. "Ninguém quer o país em recessão. Qualquer dado de crescimento de uma atividade é positivo", diz ele. Além disso, ressalta, o avanço pode estar pautado não apenas no aumento dos preços, mas também no maior volume de serviços ofertados.

Para a CNC, contudo, a expectativa para o restante do ano é de que o comércio de bens cresça mais do que o setor de serviços, que, segundo Fernandes, tende a ser mais influenciado pela inflação daqui para frente. Ele aposta nas vendas de alimentos nos hipermercados como o segmento de maior destaque no varejo em 2014, passado este período de início do ano, quando os alimentos costumam encarecer, por uma questão climática.

"O que ocorreu em janeiro não chega a ser uma reversão de tendência do comércio, que vem apresentando resultados positivos desde janeiro", analisa Fernandes, para quem a pesquisa de intenção de consumo mais sinaliza para uma alteração do perfil de compras do que para o esgotamento da capacidade da população de continuar adquirindo bens e serviços ao longo deste ano.

A leitura do economista é de que o cenário é nebuloso no que diz respeito à inflação, resistente nos últimos meses, ao encarecimento do crédito e ao endividamento das famílias. "Mas há uma compensação do emprego. Esperamos que o mercado de trabalho continue sustentando o nível de consumo", enfatiza. A CNC reviu para cima a sua projeção para o crescimento do comércio em 2014, de 5% para 5,5%, após os dados positivos de janeiro revelados pelo IBGE.

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