Por douglas.nunes
A partir de 2013%2C a alta dos preços foi generalizada entre os segmentos do setor de serviços%2C atingido%2C por exemplo%2C o de limpeza Paulo Araújo / Agência O Dia

Sozinho, o setor de serviços é capaz de pressionar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 1,4 ponto percentual para além do centro da meta de inflação, de 4,5% em 12 meses. A conclusão faz parte de nota técnica desenvolvida por Thiago Sevilhano Martinez, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Excluído o setor de serviços, portanto, o governo facilmente atingiria o centro da meta neste ano, indica o estudo. Mas, em vez disso, o que ocorre é uma pressão generalizada e crescente dos preços do setor, que somada a outras pressões, como a dos alimentos, dificulta o trabalho da equipe econômica de Dilma Rousseff.

“Quando a inflação já está muito alta em serviços, qualquer choque em alimentos, como ocorre atualmente, leva o indicador para fora da meta”, ressalta Martinez. A nota aponta ainda que a perspectiva é de continuidade desse cenário: “Essa tendência é causada tanto por um aumento dos custos relativos do setor, que é intensivo em trabalho e assim mais afetado tanto pelo crescimento dos salários, quanto por mudanças no padrão de consumo, pois a melhora da distribuição de renda tornou os serviços mais acessíveis a boa parte da população”.

Ao atrelar a inflação dos serviços à renda, Martinez recomenda como solução a revisão da política de reajuste do salário-mínimo, um tema bastante polêmico entre economistas, sindicalistas e governo. Afinal, a melhora das condições salariais — ao lado dos programas sociais, como o Bolsa Família — é a principal responsável pela distribuição de renda, marca do governo petista.

A política de correção do salário pela inflação do ano anterior (segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, INPC) e pelo Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores tem permitido a manutenção da atividade econômica, a partir de um consumo elevado das famílias. Além disso, não é seguro que mudanças na política de reajuste revertam o cenário econômico para melhor. Dentro do próprio Ipea, de onde saiu a nota técnica, não há consenso, já que o presidente da instituição, Marcelo Neri, é o pai intelectual e um defensor da “nova classe média”, grupo de consumidores surgido com a atual política de reajuste salarial.

“A recomposição do poder de compra do salário-mínimo é algo muito positivo. O problema é que a produtividade cresce muito pouco. Há um limite desse modelo no momento. É preciso ter uma política paralela de incentivo ao investimento. O que parece claro é que com esse nível alto da inflação de serviços fica difícil estabilizar o IPCA no centro da meta”, diz Martinez.

A pressão inflacionária dos serviços ocorre, de fato, desde 2010, segundo o estudo. Mas, no ano passado, ganhou novos contornos. Em princípio, a resistência dos preços ocorria em alguns segmentos específicos, como no grupo de alimentação fora de casa — em restaurantes e bares. Em 2013, entretanto, já era perceptível em todos os segmentos do setor — como no de saúde, educação, comunicação, condomínio e transporte. Para reverter tal quadro de altas generalizadas, diz Martinez, ou o Banco Central deve posicionar a taxa básica de juros a patamares elevadíssimos, com sérias implicações para o restante das atividades produtivas, ou o governo adota novas políticas econômicas.

Para o economista da Unicamp Claudio Dedecca, especialista em mercado de trabalho, a recomendação de revisão da atual política de reajuste salarial é equivocada pela repercussão no principal item de sustentação do PIB: o consumo das famílias. “Nossa inflação depende, na verdade, da nossa capacidade de ativar setores produtivos”, afirma. Também o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, elogia a atual política de reajuste salarial por embutir no seu cálculo a produtividade da economia, com a indexação do PIB de dois anos anteriores.

André Braz, da FGV/Ibre, diz que, mesmo que a renda seja controlada, com o passar do tempo, as empresas passarão a contratar mais devido ao crescimento e isso provocará uma pressão em salários, que começarão a subir novamente. “Conduzir um país ao crescimento da renda, do emprego e controlar a inflação ao mesmo tempo não é tarefa simples”, ressalta.

Trabalhadores antecipam debate sobre reajuste dos salários

A revisão da atual política de reajuste do salário-mínimo — pela inflação medida pelo INPC mais o PIB de dois anos anteriores — deverá ser debatida até 2015, já que a validade da lei sancionada pelo então presidente Luis Inácio Lula da Silva termina em 31 de dezembro do ano que vem. Como não há definição sobre a política que irá vigorar a partir de 2016, o Executivo será obrigado a se posicionar em, no máximo, um ano. A tendência, entretanto, é que o governo postergue a discussão, pois qualquer decisão por mudança, como almejam alguns membros da equipe econômica, poderá recair sobre a popularidade da presidenta Dilma Rousseff.

Na oposição, contudo, o movimento é por trazer o debate para a campanha eleitoral. O deputado Paulinho da Força (SDD-SP) promete apresentar Projeto de Lei na Câmara, na próxima semana, determinando a extensão da atual política de reajuste salarial até 2023, ano de um segundo mandato presidencial, caso Dilma não seja reeleita. “Combinei com o Aécio (Neves, pré-candidato pelo PSDB) e ele está de acordo em manter a atual política. Agora vamos discutir com os demais candidatos”, afirma Paulinho. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) tem estratégia semelhante, de antecipar o debate para tentar garantir o compromisso dos candidatos.

Dentro do governo, o tema é controverso. Economistas especializados em mercado de trabalho que participaram da arquitetura da Lei assinada em 2011 afirmam que uma parte da equipe econômica, sobretudo do Banco Central, vê na indexação do reajuste à inflação e ao PIB um elemento negativo, por carregar para o ano seguinte conjunturas passadas. Um dos principais defensores dessa tese é o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, segundo fonte. Junto com o economista da FGV/Ibre Samuel Pessoa, ele organiza o seminário “Política de Salário Mínimo para 2015-2018: avaliações de impacto econômico e social”. Nos ministérios responsáveis pela decisão sobre a política válida a partir de 2016, entretanto, ainda não há qualquer movimentação que indique o início do debate. Ainda não foi constituída, por exemplo, a comissão interministerial, liderada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, responsável por definir mudanças ou a extensão da atual política.

“O que tem que ser perguntado nesse momento é qual o risco do governo no ano que vem se enveredar em uma negociação com o Congresso em torno de uma política que tem sido de sucesso. Quais forças estão dispostas a se expor a um debate tão impopular?”, avalia Claudio Deddeca, especialista em mercado de trabalho pela Unicamp.

O setor industrial, por meio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), é o primeiro a levantar a bandeira pelo fim da política de indexação. O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da federação, Paulo Francini, argumenta que esse modelo compromete a produtividade do setor. “Na mesa de negociação já se parte da inflação, sem considerar a produtividade. E quando o salário aumenta mais do que a produtividade, ocorre perda de competitividade, o que prejudica bastante a indústria”, afirma Francini. Opinião semelhante apresentou a Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio-SP). Para Dedecca, entretanto, o sucesso da atual política deixa pouco espaço para revisões.

Você pode gostar