Crise argentina atinge polo calçadista no interior de São Paulo

O país já foi o principal parceiro comercial de Birigui, mas vendas para o vizinho caíram 45% de janeiro a maio

Por monica.lima

São Paulo - Birigui é a capital nacional do calçado infantil. A cidade do interior de São Paulo concentra 52% da produção de sapatos para criança do país e aproximadamente 80% da economia da cidade, de 115 mil habitantes, gira em torno do setor. No ano passado, Birigui produziu 55,5 milhões de pares de calçados, dos quais 3% foram exportados especialmente para a Argentina, percentual muito abaixo da média histórica de 10%. A Argentina já foi o principal parceiro comercial da cidade. Hoje, o posto de maior comprador é ocupado pela Bolívia.

Mas foi a Argentina uma das responsáveis pela desaceleração da produção nos primeiros cinco meses deste ano. Até maio, as exportações para o país vizinho caíram 45% sobre o mesmo período do ano passado, segundo o Sindicato das Indústrias do Calçado e Vestuário de Birigui (Sinbi).

Com a queda das vendas para o país vizinho, o efeito sobre as exportações foi direto. O total das exportações de Birigui caiu 9,4% e ficou em 415 mil pares de calçados. No mesmo período de 2013, foram exportados 458 mil pares.

Burocracia argentina atrapalha vendas

Desde 2012, para controlar o déficit da balança comercial com o Brasil, o governo argentino tenta travar as importações brasileiras ao exigir das empresas argentinas a Declaração Juramentada Antecipada de Importação. O documento serve para indicar a intenção de importar produtos, insumos, matéria-prima e equipamentos e deve ser entregue previamente à Administração Federal de Ingressos Públicos, o equivalente à Receita Federal no Brasil.

“O problema é que a declaração não é suficiente para a empresa importar: mesmo com o envio do documento, o empresário precisa esperar pela resposta do governo argentino”, diz o presidente do Sindicato das Indústrias do Calçado de Birigui (Sinbi), Antenor Marques. Em alguns casos, a entrada dos produtos brasileiros pode atrasar mais de 200 dias.

Segundo Marques, uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) revelou que quase 40% dos associados que exportavam para o país vizinho desistiram dos negócios por conta da imprevisibilidade. O real valorizado também não ajuda.

“Por conta disso, o empresário local deixou de buscar novos mercados e concentrou os esforços nas vendas para clientes estrangeiros que já possui, e também buscou maneiras de aprimorar os negócios no mercado interno, que apresentou queda”, afirma Marques. No primeiro semestre, a produção de Birigui teve redução de 12% a 14% em comparação a igual semestre de 2013.

Mercado interno menos aquecido

“O mercado interno também está desaquecido. Embora as pessoas continuem empregadas e a renda se mantenha em crescimento, em ritmo menor, o alto grau de endividamento afasta o consumidor de novas compras, ainda que de menor valor. Como precisa pagar outras despesas, ele deixa de comprar calçado e vestuário”, acrescenta Marques.

O sindicato aposta na participação na feira de calçados Francal como uma saída para incrementar as vendas. Começa semana que vem em São Paulo, com 800 expositores. Birigui terá um estande coletivo com 11 micro e pequenas empresas locais, com sua coleção primavera-verão. Outras duas indústrias locais também participarão com estandes individuais.

De acordo com Marques, a exemplo do que ocorre com outros setores ligados ao segmento de consumo, o segundo semestre, tradicionalmente, é marcado pelo maior volume de vendas. “O que esperamos com a Francal — e com o fim da Copa do Mundo, que obrigou os representantes comerciais a desacelerarem as vendas — é uma recuperação das vendas que não tivemos no primeiro semestre”, afima Marques. Com isso, o polo calçadista de Birigui espera ao menos manter as vendas no nível do ano passado.

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