Por douglas.nunes

As redes de supermercados estão usando a mesma fórmula para tentar superar o atual momento econômico desfavorável e o endividamento do consumidor. O investimento em ‘atacarejos’ e lojas de proximidade — ou o chamado multiformato — pauta o plano de negócios das principais empresas do setor, que buscam reter o cliente pelo preço. Os resultados apresentados pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) em seu desempenho de vendas no terceiro trimestre deste ano, comprovam o dizem analistas que acompanham este mercado. 

A receita líquida total do GPA cresceu 10,9% ante o mesmo período do ano passado, com resultados de R$ 15,6 bilhões. Somente no varejo alimentar, a receita líquida subiu 6,2% com a inauguração de 35 lojas, sendo 33 lojas de proximidade — incluindo 31 Minimercados Extra e duas unidades Minuto Pão de Açúcar — e duas do atacado Assaí. A própria empresa, em seu relatório, informou que “a estrutura multiformato, as sinergias entre os negócios e as iniciativas em multicanalidade tem permitido ao GPA apresentar crescimentos de venda mesmo diante de um cenário mais desafiador”. O faturamento líquido do Assaí cresceu 31,2 % no terceiro trimestre, chegando a R$ 2.097 bilhões, enquanto no Multivarejo, a queda de 0,3%, que levou a um resultado de R$ 6,156 bilhões, tem relação com o desempenho inferior dos supermercados e hipermercados da rede.

“O GPA, assim como todos os varejistas, têm sido fortemente impactados pelo atual cenário macroeconômico brasileiro. A baixa confiança do consumidor, maior rigor na concessão do crédito, inflação alta e desaceleração do crescimento da renda afetam o comportamento de consumo dos brasileiros. No segmento Alimentar, tanto o crescimento do terceiro trimestre de 2014 quanto o acumulado do ano estão são alavancados pelo atacarejo Assaí, pelo excelente desempenho e aderência desse formato no Brasil nos últimos anos, assim como dos formatos de vizinhança”, diz Eduardo Yamashita, diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômicas da GS&MD Gouvêa de Souza.

José Lourenço Fraga, analista de mercado da Nielsen, diz que os atacarejos são o melhor reflexo do que vem acontecendo com a economia e com o bolso do consumidor. Segundo ele, com base em dados de 2013 de estudos da Nielsen, o atacarejo no Brasil teve um crescimento de 9,3% e, nesta conta, 88% dos que estão indo às lojas de atacado — ou cash&carry como preferem chamar os especialistas — são novos consumidores.

“A explicação é simples. O movimento no caminho dos cash&carry de todas as redes de supermercados no país é por conta do preço. Estes formatos oferecem a melhor relação de preço para o cliente que, por força do atual momento econômico, está em busca de produtos mais baratos. E a guerra de preços é real. Cerca de 70% dos itens comuns, tanto em um atacarejo quanto em um autosserviço, são mais baratos no atacado”, enumera Fraga.
Ele também cita que o formato de atacarejo tem muito espaço para crescer. Isso porque, também pelos dados da Nielsen, de 20% a 30% da população vai a uma loja deste formato no Brasil.

“O consumidor que quer preço menor vai ao atacarejo e o que busca comodidade e conveniência, prefere as lojas de proximidade. E é por isso que este formato de loja de vizinhança também tem crescido. A tendência é que estas lojas de bairro também trabalhem mais ainda o preço competitivo, com opções de marcas mais baratas, aliadas ao conceito de proximidade”, continua o especialista da Nielsen.

Segundo ele, a inserção de marcas mais baratas ou de formatos que levem a cultura do atacado para dentro das lojas também é um caminho, que o GPA já está trilhando, inserindo em suas lojas com bandeira Extra uma estação que se assemelha ao conceito do Assaí. Para Fraga, a força das grandes redes e o apetite pelo investimento em formatos diferentes acende a bandeira amarela e vem levando à canibalização do pequeno varejista de supermercado, dono de uma ou duas lojas com um ou dois check outs. Pela pesquisa da Nielsen, estas pequenas lojas, que totalizavam 74.070 unidades no país em 2012, caíram para 73.158 no ano passado.

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