Vídeo sobre reunião ministerial foi assistido pelas autoridades - Arte sobre foto de Marcos/Corrêa/ivulgaçãoDPR
Vídeo sobre reunião ministerial foi assistido pelas autoridadesArte sobre foto de Marcos/Corrêa/ivulgaçãoDPR
Por MARTHA IMENES
O mistério do vídeo da reunião ministerial que o ex-ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, disse existir e comprovar a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal, enfim parece ter acabado. O vídeo, classificado como uma bomba, mostra que na reunião do dia 22 de abril, Bolsonaro disse que a perseguição a seus familiares justificaria a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro e afirmou que, se ela não fosse feita, ele mesmo trocaria o diretor-geral da PF e o próprio ministro da Justiça e Segurança Pública, cargo então ocupado por Sergio Moro, presente à reunião. Na fita, Bolsonaro trata a superintendência da PF do Rio com o termo "segurança" e afirma que não iria esperar sua família e amigos serem prejudicados.
Mas, segundo investigadores que assistiram a transmissão, o conteúdo da gravação "escancara a preocupação do presidente com um eventual cerco da Polícia Federal a seus filhos" e que Jair Bolsonaro "justificou a necessidade de trocar o superintendente da corporação no Rio de Janeiro à defesa de seus próprios filhos" alegando que sua família estaria sendo perseguida, segundo informações da Agência Estado.
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A expectativa agora é se o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello vai liberar as imagens. Ontem, o ministro ordenou a degravação (transcrição) do conteúdo da reunião, que deverá ser encaminhada para seu chefe de gabinete, Miguel Piazzi. 
Segundo avaliação do advogado Manoel Peixinho, especialista em Administração Pública e professor da PUC-RJ, o decano do STF deve dar publicidade ao conteúdo da fita. "Os fatos são gravíssimos, na minha opinião, há base jurídica, tanto para o processo criminal quanto para o impedimento do presidente", diz Peixinho. E acrescenta: "O vídeo é uma prova incontestável porque não depende de depoimento de testemunhas. O depoimento é importante, mas o vídeo por si só é uma prova suficiente para incriminar o presidente da República".
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E o que acontece agora? "Se for confirmada a afirmação de Bolsonaro, o procurador-geral da República, Augusto Aras, deve oferecer denúncia criminal contra o presidente da República. Caberá ao ministro Celso de Mello receber a denúncia ou não. De qualquer forma para que o presidente seja processado criminalmente o Congresso Nacional (Câmara e Senado) deve dar autorização", explica Peixinho.
E conclui: "Independente disso esse caso, como é gravíssimo, pode haver abertura de processo de impeachment, seja pelo parlamento, algum cidadão ou instituição. O processo dependerá de aceitação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Se ele aceitar é formada uma comissão que irá analisar todo o processo". 
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Para o advogado de Sergio Moro, Rodrigo Sánchez Rios, o material confirma integralmente as declarações do ex-ministro Sergio Moro na entrevista coletiva de 24 de abril e no depoimento prestado à PF em 2 de maio. "É de extrema relevância e interesse público que a íntegra desse vídeo venha à tona. Ela não possui menção a nenhum tema sensível à segurança nacional", afirmou.
Segurança 
O vídeo foi exibido sob forte esquema de segurança em um ato único realizado no Instituto Nacional de Criminalística (INC), sede da perícia da Polícia Federal em Brasília. Sergio Moro compareceu para assistir o vídeo, acompanhado de seus advogados. Também estavam presentes policiais federais, procuradores da equipe da Procuradoria-Geral da República e integrantes da Advocacia-Geral da União (AGU), responsáveis pela defesa de Bolsonaro. Todos tiveram que deixar os telefones celulares do lado de fora da sala.

O INC também montou um esquema de isolamento da área próxima à sala onde o vídeo foi exibido. Próxima ao refeitório, foi recomendado que os peritos evitassem o local porque a área estava sendo usada para assuntos "sensíveis". 

Vídeo deveria ter sido destruído
O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar a jornalistas ontem que o vídeo da reunião ministerial, por não ser oficial, deveria ter sido destruído. Ele afirmou que não tem preocupação com investigações e que não falou as palavras Polícia Federal e superintendência durante a reunião ministerial do mês passado.
"Em reunião ministerial, sai muita coisa. Agora, não é para ser divulgada. A fita era para ser destruída - após aproveitar imagens para divulgação, ser destruída. Não sei por que não foi", afirmou o presidente.

Bolsonaro disse ainda que as informações repassadas a imprensa sobre a reunião ministerial são fake news. Além disso, disse que sua preocupação era com a segurança da família, não com investigações. A afirmação não faz sentido, a segurança da família é feita pelo Gabinete de Segurança Institucional - não pelo Ministro da Justiça, nem pela Polícia Federal.
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Popularidade em baixa
Presidente da República Jair Bolsonaro: popularidade do governo e pessoal em baixa.Promessas de campanha deixadas de lado
Presidente da República Jair Bolsonaro: popularidade do governo e pessoal em baixa.Promessas de campanha deixadas de ladoisac Nóbrega/PR
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Em meio à pandemia do coronavírus, o governo Jair Bolsonaro perdeu apoio de parte da população e atingiu as piores avaliações da sua gestão e pessoal desde que assumiu o cargo. É o que mostra pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) com o Instituto MDA divulgada ontem. A soma de ruim e péssimo saltou de 31% para 43,4% em quatro meses - o maior percentual negativo nos quatro levantamentos feitos durante o governo Bolsonaro. Os que avaliam o governo como regular eram 32,1% e, agora, são 22,9%. A pesquisa também apontou que a maioria da população (67,3%) aprova o isolamento social amplo, independente de integrar grupos de risco.

A aprovação do desempenho pessoal de Bolsonaro na gestão caiu de 47,8% para 39,2% no período. A fatia dos avaliam o governo como ótimo ou bom também recuou: saiu de 34,5% para 32% entre janeiro e maio deste ano.

O instituto questionou os entrevistados se aprovam ou desaprovam o desempenho pessoal do presidente da República à frente da administração. A pesquisa apontou que a desaprovação subiu de 47% para 55,4%, o mais negativo nos levantamentos CNT/MDA. Os que não opinaram ou não souberam responder representam 5,4%.

As piores avaliações do governo e pessoal do presidente haviam sido registradas em agosto de 2019. À época, 53,7% dos entrevistados desaprovavam o presidente e 39,5% reprovavam o governo.

Foram feitas 2.002 entrevistas por telefone entre 7 e 10 de maio em 494 municípios de 25 Unidades da Federação. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Senador pede ao STF liberação das imagens
Randolfe Rodrigues
Randolfe RodriguesDivulgação/Agência Senado
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O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou pedido ao ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal e relator do inquérito sobre interferências na Polícia Federal, pela liberação da íntegra da reunião ministerial do dia 22 de abril, citada como Moro como a ocasião em que o presidente Jair Bolsonaro teria ameaçado trocar o comando da PF no Rio.

Randolfe alegou a Celso de Mello que o caso se trata de investigação de maior relevo para a República e que a rápida solução da controvérsia envolvendo as declarações de Moro contra o presidente é imperiosa para a pacificação social.

"Não há qualquer defesa de intimidade ou interesse social que justifiquem a manutenção do segredo em relação a elementos probatórios relacionados à investigação de crimes contra a Administração Pública", afirmou o senador. "Dessa forma, é imperiosa a divulgação na íntegra do citado vídeo o mais rápido possível, a fim de que a sociedade possa livremente deliberar sobre os fatos ali expostos".
Weintraub pede prisão de ministros do STF
Ministro Abraham Weintraub
Ministro Abraham WeintraubMarcelo Camargo
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O vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril não parou na pressão sobre o ex-ministro Sergio Moro. As imagens registram o ministro da Educação Abraham Weintraub dizendo que "todos tinham que ir para a cadeia, começando pelos ministros do STF", segundo informações da Agência Estado. Já a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves defendeu a prisão de governadores e prefeitos, indicam fontes que assistiram apeça chave no inquérito. Também na reunião, Bolsonaro chamou o governador de São Paulo, João Dória, de 'bosta' e pessoas do governo do Rio de Janeiro de "estrume".

"A ministra Damares Alves, por meio de sua assessoria, disse que pediu a punição de prefeitos e governadores no contexto de desvios de insumos durante a pandemia e violação de direitos, citando como exemplo atos truculentos contra idosos que não respeitarem as regras de isolamento e distanciamento social. Segundo a assessoria, a ouvidoria do ministério tem 8500 denúncias sobre isso". Procurada, a assessoria do Ministério da Educação informou que Weintraub não vai se manifestar.