Em depoimento, ministros contradizem Bolsonaro

Ramos e Heleno afirmaram em depoimento que o presidente citou a Polícia Federal na reunião do dia 22. Já Bolsonaro, diz que é um 'equívoco'

Por O Dia

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Os depoimentos que os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) deram à Polícia Federal contradizem o presidente Jair Bolsonaro. Os generais afirmaram que o presidente citou a Polícia Federal em reunião ministerial do último dia 22 de abril. Mas Bolsonaro garantiu que não havia dito os nomes "Polícia Federal" ou "superintendência". "Não existe no vídeo todo as palavras Polícia Federal e nem superintendência", disse. Diferentemente de Heleno e Ramos, que citam a PF, o ministro Braga Netto (Casa Civil) diz que Bolsonaro não menciona o órgão e que o presidente estava se referindo à segurança pessoal de sua família. O vídeo do encontro foi apontado por Moro como prova de que o chefe do Executivo teria exigido mudanças na chefia da PF e ameaçado demitir o ex-ministro.

Ramos afirmou ainda que nas reuniões matinais em que foi citada a possibilidade de trocar o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, o então ministro Sergio Moro não estava presente. O ministro afirmou, inclusive, que chegou a ligar para Moro, sem Bolsonaro saber, para tentar uma "saída negociada" para a troca da diretoria-geral da PF.

Inicialmente, o general afirmou que "não foi mencionado pelo presidente que se não pudesse trocar o diretor-geral da Polícia Federal ou o Superintendente da Polícia Federal no Estado de Janeiro, ele trocaria o próprio ministro". Eduardo Ramos pediu, ao fim do depoimento, para substituir o termo "não foi mencionado" por "não se recorda se foi mencionado".

"O presidente queria interferir em todos os ministérios para melhorar a qualidade de relatórios de inteligência recebidos por ele", disse Ramos. Os documentos foram alvo de críticas declaradas "de forma contundente" durante a reunião ministerial, segundo o general. "O presidente afirmou 'vocês precisam estar comigo' e que era necessária união para o governo atingir seus objetivos".

A falta de informações teria sido um puxão de orelha de Bolsonaro nos ministros, segundo o ministro Augusto Heleno. "Na ocasião, o presidente cobrou de forma generalizada todos os ministros na área de inteligência, tendo também reclamado da escassez de informações de inteligência que lhe eram repassadas para subsidiar suas decisões, fazendo citações específicas sobre sua segurança pessoal, sobre a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), sobre a Polícia Federal e sobre o Ministério da Defesa; que as citações foram feitas na forma de cobranças duras dirigidas aos ministros na ocasião", acrescentou Heleno.
Bolsonaro diz que ministro se 'equivocou'
Na saída do Palácio da Alvorada, em frente ao "cercadinho" onde fica a sua claque de apoiadores e jornalistas, o presidente da República Jair Bolsonaro repetiu ontem que não falou as palavras "Polícia Federal" na reunião ministerial de 22 de abril, que serão extintas, diferentemente do que afirmou o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) em depoimento na terça-feira. "O Ramos se equivocou. Mas como é reunião, tem o vídeo. O Ramos, se ele falou isso, se equivocou. Se ele falou isso aí", disse Bolsonaro.

Apesar de apenas Ramos ter sido citado pelo presidente, o ministro Augusto Heleno, também disse em depoimento que Bolsonaro falou em "Polícia Federal" na reunião. Já o ministro da Casa Civil, Braga Netto, confirmou trecho do depoimento de Moro prestado à PF no dia 2 de maio, sobre uma conversa que ele disse ter mantido com os ministros militares.

O ministro confirmou que Bolsonaro "demonstrava insatisfação com a qualidade das informações de inteligência, mas não com a pessoa do então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo". "Quando o presidente falou em trocar 'a segurança no Rio de Janeiro', entendeu que se tratava da segurança pessoal do presidente, a cargo do GSI, não trocar o comando da PF do Rio", disse Braga Netto.

Prazo dado pelo STF acaba amanhã

O prazo de 48 horas para que as partes do inquérito sobre a suposta interferência do presidente da República na Polícia Federal, acaba amanhã. O ministro Celso de Mello determinou que as partes envolvidas se manifestem sobre o sigilo da gravação da reunião. Além do ex-ministro Sergio Moro, que concorda com a divulgação da fita na íntegra, devem se manifestar a Procuradoria-Geral da República e a Advocacia Geral da União. O ex-ministro chegou a pedir ao Supremo a liberação das imagens. Ontem o presidente Jair Bolsonaro afirmou à jornalistas na saída do Palácio da Alvorada que, da parte dele, também está liberada a divulgação das imagens, mas somente algumas partes.
No pedido da defesa de Moro, os advogados apontam que a fala do presidente na reunião foi direcionada ao ex-ministro pelos seguintes motivos: Moro não apoiou ida de Bolsonaro a atos do dia 19 de abril; o ex-ministro não apoiou manifestação de Bolsonaro contra o distanciamento social; declarações do presidente que minimizavam a pandemia não foram apoiadas por Moro; o ex-ministro foi contra a interferência de Bolsonaro na PF do Rio de Janeiro e na direção-geral da corporação; Bolsonaro se mostrou insatisfeito com relatórios de inteligência e informações providenciadas pela PF.

Para a defesa de Moro, "a reivindicação pela publicidade total da gravação trará à luz inquietantes declarações de tom autoritário inviáveis de permanecerem nas sombras, pois não condizem com os valores estampados de forma categórica no artigo 5. da Constituição Federal de 1988. Novamente, invocando seu magistério perene e vital para a manutenção da ordem democrática do Estado de Direito, por ocasião de pronunciamento pela passagem do Décimo aniversário da investidura do Ministro Dias Toffoli no cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal."

Ao ministro do Supremo, a defesa de Moro afirma que o material não contém "qualquer assunto pertinente a Segredo de Estado ou que possa gerar incidente diplomático, muito menos colocar em risco a Segurança Nacional".

Depoimentos confirmam o dito por Moro

Os três ouvidos no inquérito que apura as denúncias de Moro contra Bolsonaro, confirmaram o que foi dito pelo ex-ministro. Em depoimento ontem à Polícia Federal, em Brasília, a deputada federal Carla Zambelli (PSL), confirmou as tratativas com Moro, via celular, para que ele aceitasse a troca na PF e oferecendo vaga no Supremo.

Ao contrário do afirmado por Bolsonaro, que para justificar o interesse na PF afirmou se tratar de segurança familiar, não há policial federal na segurança pessoal e nem familiar do presidente, segundo o delegado federal, Carlos Henrique Oliveira.

Já o também delegado Alexandre Saraiva, admitiu que recebeu uma ligação de Alexandre Ramagem - que não ocupava cargo na PF - em agosto do ano passado oferecendo a superintendência no Rio.

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