Senador Randolfe Rodrigues, da Rede: pedido de inquérito ao Supremo Tribunal Federal e denúncia à Organização dos Estados Americanos - Jefferson Rudy/Agência Senado
Senador Randolfe Rodrigues, da Rede: pedido de inquérito ao Supremo Tribunal Federal e denúncia à Organização dos Estados AmericanosJefferson Rudy/Agência Senado
Por MARTHA IMENES
Publicado 25/08/2020 06:00 | Atualizado 25/08/2020 12:49
O destempero e a falta de educação do presidente Jair Bolsonaro, que ameaçou "encher a boca de um repórter de porrada", ao ser questionado sobre os supostos depósitos de Fabrício Queiroz, que somaram R$ 89 mil, na conta da primeira-dama Michelle, repercutiu muito mal dentro e fora do país, e foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Ontem mesmo, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) pediu ao Supremo abertura de inquérito para apurar a ameaça feita pelo presidente ao jornalista. "A conduta do presidente pode configurar os crimes de ameaça e constrangimento", avalia Randolfe. "Cabe uma ação criminal, pois houve inequivocamente uma ameaça. O crime é previsto no artigo 147 do Código Penal e o processo corre no STF, se for autorizado pela Câmara dos Deputados", acrescenta o advogado Sérgio Batalha. 

Após a ameaça, não demorou muito para que o assunto ganhasse repercussão nas redes sociais, ficando entre os mais comentados em nível nacional no Twitter, por exemplo. As hastags "Bolsonaro", "89 mil" e "Queiroz" ficaram entre as mais citadas.

E por que de tanta violência? Segundo o sociólogo e cientista político da UFRJ, Paulo Baía, "(Bolsonaro) odeia tudo o que a democracia representa". E foi mais além: "Ele não vai parar! O repórter deveria fazer um registro de ocorrência na delegacia". A visão é partilhada pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jerônimo. Pagê explicou ao jornal O DIA que somente o repórter ofendido pode acionar o presidente. "Vamos acompanhar os acontecimentos e ver que medidas adotar", disse.

Fake news

Poucas horas depois do rompante de violência contra o repórter de O Globo, e para justificar a ameaça, sites bolsonaristas entraram em ação para desacreditar a imprensa e legitimar a violência do chefe do Executivo. O vídeo da visita presidencial à Catedral de Brasília foi editado e a fala de um apoiador que dizia "vamos visitar a feirinha agora, presidente" virou "vamos visitar a filha do presidente na cadeia".

O próprio Bolsonaro compartilhou as imagens manipuladas na rede social e escreveu um versículo bíblico na legenda. Pouco mais tarde, durante cerimônia no Planalto o presidente voltou a ofender a imprensa. Segundo ele, os jornalistas são "bundões" e não resistiriam à covid.

Cabe destacar que em nenhum momento, o chefe do Executivo se solidarizou com as mortes de brasileiros, que passa de 115 mil.

Intimidação é destaque na imprensa estrangeira
Jornais e sites de países como Reino Unido, Estados Unidos, Argentina e Índia publicaram textos sobre a ameaça do presidente Bolsonaro ao repórter. O jornal "The Guardian", do Reino Unido, trouxe a reação dentro do Brasil dizendo que políticos da oposição e pessoas da mídia brasileira condenaram a fala de Bolsonaro. O "Independent" e a versão online do "Daily Mail" também registraram a ameaça.

Já as agências de notícias AFP e Reuters resgataram as questões sobre Queiroz, que continuam a assombrar a família Bolsonaro, e cuja a investigação sobre o ex-assessor incomodam o presidente e sua promessa de não tolerar corrupção. O texto da Reuters foi reproduzido no site do "The New York Times", dos Estados Unidos.

"Clarín" e "La Nación", os dois principais jornais da Argentina, também noticiaram a ameaça e relembraram que Queiroz e Flávio são investigados por desviar o salário de funcionários do atual senador quando era deputado estadual.

Jornais da Índia, como o "India Today" e o "The Hindu", e o "ABC", da Espanha, deram destaque ao destempero de Bolsonaro.