Dinheiro de empresas financiou os mais votados para a Câmara

Em SP, R$ 18 mi dos R$ 24,3 mi arrecadados pelas campanhas dos dez mais bem colocados vieram de pessoas jurídicas

Por bruno.dutra

Rio - As prestações de contas das campanhas dos dez deputados federais mais bem votados nos três estados mais populosos — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que respondem por quase um terço do eleitorado brasileiro — mostram que o financiamento de campanhas por empresas privadas pode ter sido decisivo na eleição desses políticos. A forma de financiar as campanhas deverá ser um dos temas mais discutidos na reforma política que o governo pretende conduzir em 2015.

A prestação de contas do deputado federal Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara e terceiro mais bem votado, é exemplar. Das mais de 40 doações recebidas por sua campanha, 98% vieram de 14 empresas, de acordo com dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De apenas três delas — CRBS (Ambev), Rima Industrial e Telemont Engenharia — Cunha recebeu R$ 2,9 milhões, 42% do total de R$ 6,832 milhões que sua campanha arrecadou. Outros grandes doadores foram a Líder Táxi Aéreo (R$ 700 mil) e os bancos BGT Pactual, Santander e Bradesco que, somados, doaram R$ 1,3 milhão.

No caso do estreante Marco Antonio Cabral (PMDB-RJ), filho do ex-governador Sérgio Cabral, 97% dos R$ 6,79 milhões arrecadados por sua campanha vieram de empresas. Quatro delas doaram R$ 500 mil cada uma: Rio de Janeiro Refrescos (distribuidora da Coca-Cola), Carioca Christiani Nielsen Engenharia, Construtora Queiroz Galvão e Cervejaria Petrópolis. De duas empresas do Bradesco — Vida e Previdência e Capitalização — vieram outros R$ 500 mil. 

Em São Paulo, R$ 18 milhões dos R$ 24,3 milhões arrecadados pelas campanhas dos dez deputados federais mais votados foram bancados por empresas. A maior parte das doações se concentrou nos candidatos do PSDB, partido que governa o estado há duas décadas e que reelegeu com folga o governador Geraldo Alckmin, além de conquistar o maior número de cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara em Brasília.

O deputado Carlos Sampaio (PSDB), por exemplo, sexto mais votado para a Câmara federal, recebeu cerca de R$ 1,65 milhão de 10 empresas que doaram, cada uma, pelo menos R$ 100 mil. Ele foi um dos poucos a receber um montante alto de pessoas físicas: de apenas três eleitores, vieram R$ 485 mil. Seu colega tucano Samuel Moreira, 9º mais votado no estado, arrecadou metade dos R$ 2,8 milhões de sua campanha junto a empresas como a Tratenge Engenharia (R$ 500 mil) e a CRBS (R$ 240 mil).

Fora do PSDB, o deputado Rodrigo Garcia (DEM), quinto mais votado, com 336.151 votos, e cuja receita de campanha somou R$ 2,8 milhões, teve, entre doações diretas e repasses de seu partido, pelo menos 15 pessoas jurídicas que contribuíram com pelo menos R$ 100 mil cada.
Entre os dez parlamentares mais votados de cada um dos três estados, a maior doação individual de uma empresa privada foi em Minas Gerais. O deputado Toninho Pinheiro (PP) recebeu mais de R$ 1,2 milhão do Supermercado BH. Além disso, o partido repassou à sua campanha mais R$ 500 mil oriundos da JBS. Essas duas empresas responderam por quase 40% do total arrecadado por Pinheiro (R$ 4,3 milhões).

Já o deputado federal mais votado de Minas, Reginaldo Lopes (PT), cuja campanha arrecadou R$ 4,5 milhões, teve 30% de sua arrecadação concentrada em empresas de laticínio — Goiás Minas Indústria (R$ 737 mil), Bela Vista (R$ 580 mil) e Tirolez (R$ 190 mil). A JBS doou R$ 311 mil. Aliás, a líder mundial em produção e processamento de carnes distribuiu, entre os dez deputados federais mais votados em Minas, R$ 927 mil. Para os mais votados de São Paulo e Rio de Janeiro, destinou R$ 1,498 milhão.

Entre os 30 deputados federais mais votados nos três estados, apenas Chico Alencar e Jean Wyllys, ambos do Psol-RJ, se elegeram sem um centavo das empresas. As duas campanhas, somadas, arrecadaram R$ 235 mil, apenas com doações de pessoas físicas — a maioria inferiores a R$ 1 mil.

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