Dilma defende direito à livre manifestação, sem violência

Procurando demonstrar tranquilidade em relação aos protestos contra o seu governo, a presidenta afirmou que atos pacíficos fazem parte da democracia e rebateu as pressões para encurtar o seu mandato

Por monica.lima

Brasília - A presidenta Dilma Rousseff cobrou ontem da oposição a apresentação de justificativas para pedir o impeachment de seu mandato. Após cerimônia no Palácio do Planalto que sancionou a Lei de Tipificação do Feminicídio, Dilma disse que as manifestações previstas para o próximo domingo terão que ter “a cara de seus convocadores”.

Em meio à ameaça de manifestações de rua e com a relação com o Congresso Nacional abalada, a presidenta passou o dia em articulação na tentativa de sair do momento crítico de segundo mandato e ver aprovado o seu pacote fiscal. Pela manhã, atendendo a exigência do PMDB, incluiu o vice-presidente Michel Temer na reunião do Conselho Político, prometendo que a reunião será rotina. Após a cerimônia de sanção da Lei do Feminicídio, fez nova reunião, desta vez com líderes da base aliada no Senado e ministros que trabalham pela aprovação do ajuste fiscal no Congresso. À noite, Dilma ofereceu jantar aos líderes petistas do Senado e da Câmara.

“Há que se caracterizar razões para o impeachment e não o terceiro turno das eleições”, disse a presidenta a jornalistas, ao final da cerimônia de sanção. “O que não é possível no Brasil é não se aceitar a regra do jogo democrático. A eleição acabou, houve primeiro e segundo turno. Terceiro turno das eleições, para qualquer cidadão brasileiro, não pode acontecer, a não ser que se queira uma ruptura democrática”, declarou.

Dilma procurou demonstrar tranquilidade em relação às manifestações, disse que é natural e faz parte das regras da democracia. Mas salientou o caráter antidemocrático com que elas vêm sendo convocada. “Sou de uma época em que se a gente se manifestasse, ia parar na cadeia, podia ser torturada ou morta”, recordou, com a ressalva: “Ela (a manifestação) em si não representa nem a legalidade nem a legitimidade de pedidos que rompem com a democracia”.

Sem apontar diretamente partidos ou ex-candidatos, o governo tem caracterizado as manifestações pró-impeachment como tentativa de golpe. Com o mesmo tom da presidenta Dilma, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, mencionou, mais cedo, o terceiro turno. Mercadante convocou jornalistas para comentar a reação, em alguns locais, de manifestações contra a mensagem da presidenta alusiva ao Dia da Mulher, em cadeia de Rádio e TV no domingo, na qual pediu parceria da sociedade para o ajuste fiscal.

Depois de defender a legitimidade dos protestos, Mercadante avaliou que as reações partiram de moradores de cidades e bairros onde o PT sofreu uma derrota eleitoral significativa. “A primeira regra do sistema democrático é reconhecer o resultado das urnas. No Brasil só há dois turnos, não tem terceiro turno. A eleição acaba quando alguém vence. Nós vencemos as eleições pela quarta vez e isso tem que ser reconhecido”, defendeu Mercadante.

Assim como fez nas manifestações de junho de 2013, o governo tem usado o discurso da liberdade de expressão e da tolerância para falar dos movimentos que estão sendo organizados atualmente. Tanto Mercadante quanto Dilma apelaram, ontem, para a gravidade do uso da violência nos atos.

“Temos de conviver com a manifestação, o que nós não podemos aceitar é a violência, qualquer forma de violência nós não podemos aceitar, mas manifestações pacíficas são da regra democrática”, disse Dilma na entrevista. Mercadante, por sua vez, afirmou que “toda manifestação que é pacifica, é um direito do cidadão”. O ministro lembrou que essas manifestações são reflexo de eleições polarizadas e radicais. “Nós precisamos construir uma cultura de tolerância, de diálogo, de respeito. É isso que ajuda a construir uma agenda de convergência que é fundamental para o país”, apelou o ministro.

No discurso que fez às mulheres na cerimônia de sanção da Lei do Feminicídio, a presidenta não falou diretamente das manifestações, mas por 16 vezes utilizou a palavras “intolerância”. Em um dos momentos, Dilma declarou que “a intolerância e o preconceito são a semente do racismo, da xenofobia e do autoritarismo. Matam o amor, a fraternidade e matam também - é bom sempre nós lembramos -, a democracia”.

Dilma e Mercadante frisaram a importância de superação da crise política para a recuperação da confiança de investidores, em um momento em que agências de classificação de risco ameaçam rebaixar o país. “Eu acredito que é muito prudente o país perceber que precisa de estabilidade, precisa de amainar todas as situações de conflito, porque nós estamos enfrentando uma fase aprofundada da crise econômica”, salientou a presidenta, para quem já no final deste ano o país apresentará sinais de recuperação, caso aprove o pacote fiscal. “Até o final deste ano nós voltamos a ter um certo crescimento, é isso que esperamos. Vamos ter um esforço agora para ser compensado depois, esta é a condição em qualquer hipótese”.

Ao confirmar que vai se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta disse que conta com a “liderança” de quem tem noção de estabilidade e compromisso com o país. “Ele (Lula) não é uma pessoa que gosta de botar fogo em circo”.

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