Por bruno.dutra

Sua ação foi muito importante durante o ciclo autoritário nos países latino-americanos, nos anos 60 e 70. Suas denúncias no exterior contribuíram para o desgaste das ditaduras militares no Cone Sul, notadamente no Brasil, na Argentina e no Chile. Os tempos são outros e os alvos das denúncias mudaram.

Ontem, a Anistia advertiu que a Venezuela está sofrendo “uma espiral de violência”, que começou em fevereiro, quando ocorreram os primeiros protestos contra o governo Nicolás Maduro. De lá para cá, já houve mortos, 550 feridos e 2 mil detidos. “Vemos um descontrole das forças de segurança venezuelanas, especialmente contra manifestantes da oposição”, adverte a diretoria da Anistia Internacional para as Américas.

A denúncia é bem fundamentada. Há fotos e depoimentos de vítimas de abusos, tortura e violência por parte da Guarda Nacional e de grupos paramilitares simpáticos a Maduro. O presidente venezuelano, obviamente, nega os desmandos e se diz vítima de conspiração. Não é uma novidade. Os generais de plantão, nos anos de chumbo, também negavam as acusações da Anistia e diziam que se tratava de campanha para manchar a imagem dos respectivos países.

Em seus delírios, o sucessor de Chávez vê a mão dos opositores até nos incêndios florestais e teme ser envenenado pelos inimigos. Recentemente, trombeteou que um grupo de especialistas em veneno iria desembarcar em Caracas com o objetivo de inocular uma dose letal no presidente bolivariano. Jogou a denúncia no ar e não deu mais notícias sobre a ameaça de atentado.

Se Maduro ficasse nas parlapatices, seria apenas ridículo. Mas ele vai muito além. Desde que os protestos de rua começaram, mandou prender, além do presidente do partido Vontade Popular, Leopoldo López, os prefeitos Enzo Scarano, de San Diego, e Daniel Ceballos, de San Cristóbal. Afirma que os dois últimos desacataram a ordem do STJ de evitar barricadas dos manifestantes em suas cidades.

Agora, investiu contra a deputada María Corina Machado, uma das principais líderes da oposição. Acusando-a de infringir a lei ao representar o Panamá em reunião da OEA, cassou o mandato da adversária novamente com o respaldo do STJ, um tribunal totalmente dócil ao Executivo desde os tempos de Chávez.

A deputada, que classifica sua cassação como “uma aberração típica de uma ditadura”, falou em nome do Panamá exatamente para denunciar a situação na Venezuela. María Corina é osso duro de roer. Mesmo sob o risco de ser presa, voltou a Caracas e garantiu que vai continuar lutando contra Maduro. “Por que nos calam? Porque têm terror à verdade e ao povo que está na rua, que luta pela liberdade”, desafiou.

Ontem, ao desembarcar em Brasília para participar de reuniões no Senado e na Câmara, afirmou que a Venezuela vive sob censura e que a imprensa internacional tem sido fundamental para mostrar o que se passa no seu país. Para ela, a cassação do mandato não tem amparo jurídico. “É um ato que só ocorre em ditaduras. Vim a Brasília como deputada e vou continuar sendo nas ruas da Venezuela”.

De um lado, estão a Anistia Internacional e María Corina, do outro, age a guarda pretoriana de Maduro. Até quando o Brasil vai ficar em cima do muro?

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