A tempestade perfeita tem pai

Ao rebater a avaliação negativa do Fundo Monetário Internacional sobre os rumos da economia brasileira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que não há qualquer motivo para preocupação

Por bruno.dutra

Segundo ele, “o Brasil tem uma situação sólida” e “tem a confiança do mercado internacional”. O câmbio está estabilizado e o país continua a ser um dos principais receptores de investimentos estrangeiros diretos. Quanto ao relatório do FMI que incluiu o Brasil entre os cinco países emergentes mais vulneráveis do mundo, Mantega foi taxativo: “O Fundo comete o mesmo equívoco que foi perpetrado por aqueles que diziam que nós teríamos uma tempestade perfeita”. Essa previsão pessimista, explicou o ministro, foi superada pelos fatos.

Não adianta polemizar com Guido Mantega. Sempre otimista, ele garante que não haverá recessão e também que a inflação continuará em trajetória descendente. Mas o que surpreendeu na reação do ministro ao FMI foi a atribuição da “tempestade perfeita” a críticos anônimos. Até as pedras da Lapa e o gramado da Esplanada dos Ministérios em Brasília sabem que o pai da expressão é o ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto. Em artigos e entrevistas no fim de 2013, Delfim advertiu que o Brasil poderia enfrentar o pior dos mundos em 2014. Uma conjunção de fatores mostrava-se ameaçadora. Além de apontar o desajuste fiscal, a depreciação do real e o desequilíbrio das contas externas, ele temia o impacto sobre a economia brasileira do fim dos incentivos monetários nos EUA, seguido de alta de juros no mercado financeiro internacional (ponto, aliás, que voltou à baila no último relatório do FMI).

Por que Mantega não deu nome aos bois? Por que não fez referência direta à previsão agourenta de Delfim Netto? Por que preferiu citar, de forma genérica, “aqueles” que falavam da tal tempestade? Eis o motivo mais provável: professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, Delfim é amigo e conselheiro do atual ministro da Fazenda, também formado pela FEA-USP. Desde que assumiu o cargo, Mantega criou o hábito de consultar Delfim e Luiz Gonzaga Belluzzo. Já no governo Dilma, houve vezes em que a presidente soube da presença dos dois economistas em Brasília e pediu que o ministro os levasse ao Palácio da Alvorada. Execrado na esquerda pela participação na ditadura militar, Delfim adaptou-se aos tempos democráticos, a tal ponto que conquistou a confiança dos governantes petistas.

O ex-ministro do general Médici, porém, não é tão generoso com seus novos companheiros. Ontem, em seu artigo na “Folha de S.Paulo”, Delfim voltou a bater pesado no governo ao analisar os motivos do clima de desconfiança entre os empresários. Apontou três fatores. Os dois primeiros são o fim do ciclo favorável de trocas externas e o atraso no projeto de concessões ao setor privado, por influência da “ideologia corporativa e estatizante” do PT. Mas guardou o petardo mais demolidor para o terceiro item: “Por último, mas não menos importante, (a desconfiança é resultado) da destruição do setor industrial e seus investimentos, que reduziu o crescimento do PIB per capita dos últimos quatro anos a 15 ao ano”. Pela primeira vez, portanto, um economista fala em destruição da indústria nacional. Para os registros históricos, o nome dele é Antonio Delfim Netto.

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