É tempo de pragmatismo

O problema do governo é que o debate da política econômica está dentro do próprio PT. Pelo visto, o partido sofreu uma recaída

Por diana.dantas

Depois de 12 anos no poder, era de se esperar que o PT já tivesse aposentado algumas bandeiras ingênuas dos tempos de oposição. Houve época em que o Partido dos Trabalhadores pedia o rompimento com o Fundo Monetário Internacional, o calote da dívida externa e a previsão constitucional de juros máximos de 12% ao ano. Petistas de alto coturno defendiam estas posições em discursos apaixonados no Congresso, certos de que representavam o único caminho para o desenvolvimento econômico e social. O radicalismo só foi abandonado no segundo semestre de 2002, quando surgiu a chance real de Lula se eleger presidente da República. Após a chegada ao Palácio do Planalto, o pragmatismo instalou-se de vez e o PT curvou-se aos fundamentos sólidos da economia.

No primeiro mandato de Dilma Rousseff, a receita recebeu pitadas de heterodoxia, principalmente na área fiscal. De início, a fórmula (depois chamada de nova matriz econômica) funcionou e recebeu aplausos da corrente desenvolvimentista, à qual pertence a presidente. Mas, com a perda de fôlego da economia de vizinhos como a Argentina e o crescente endividamento das famílias, o modelo centrado no investimento público e no consumo interno começou a fazer água. O que não foi reconhecido em nenhum momento pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele garantia que a crise era passageira, a inflação estava sob controle e não havia porque alterar o rumo da política econômica. A retórica otimista foi encampada por Dilma e pavimentou sua reeleição.

A presidente, porém, já sabia que a fórmula criativa estava esgotada e era chegado o tempo de voltar ao feijão com o arroz. Ao convidar Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, Dilma deixou claro que fez opção pela retomada da ortodoxia monetária e fiscal. Não surpreendem, portanto, as primeiras medidas anunciadas pelo governo. As mudanças na Previdência e o mini-pacote tributário fazem parte do novo figurino. O Banco Central entrou na dança ao elevar a Selic para 12,25%, mas mirando em 13%. Dizem que Alexandre Tombini está feliz da vida porque, enfim, tem na Fazenda parceiros dispostos a dar uma forte freada de arrumação na economia, mesmo que o preço a pagar seja um breve período de recessão.

Se pregava soluções semelhantes, o PSDB agora atira na guinada da política econômica. Apesar da incongruência, não poderia ser diferente. O que espanta, no entanto, é a reação de determinadas alas do PT. No mesmo tom do passado, a Fundação Perseu Abramo, do PT, emitiu boletim em que põe em dúvida a eficácia do ajuste e acusa a estratégia do segundo mandato de “bastante conservadora e ortodoxa”. Também divulgou texto do economista Guilherme Mello com ataques à política de juros altos. “Novos aumentos na Selic, aliados a medidas fiscais anunciadas neste início de ano, podem afetar a defesa dos ganhos sociais e de empregos dos anos recentes”.

Outros petistas, como o deputado Sibá Machado, correm em defesa de Dilma e afirmam que os ajustes são necessários para preservar o poder de compra e as conquistas sociais. Na opinião do professor Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, caberia aos intelectuais do PT enfrentar o debate e mostrar que a política econômica em curto prazo é batalha tática para manter a baixa taxa de desemprego e a taxa de inflação sob controle. O problema do governo é que o debate está dentro do próprio PT. Pelo visto, o partido sofreu uma recaída.

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