A prova de fogo de Temer

Nas tratativas com os líderes da base aliada, Temer estará vestindo a camisa do governo Dilma ou defendendo os interesses do PMDB?

Por diana.dantas

Ao entregar a articulação política ao vice-presidente Michel Temer, a presidente Dilma Rousseff fez uma manobra ao mesmo tempo agressiva e arriscada. Ela soube, sem dúvida, transformar um limão em limonada. Não ficou paralisada diante da resposta negativa do ministro Eliseu Padilha, que se recusou, por motivos pessoais, a assumir o lugar de Pepe Vargas na Secretaria de Relações Institucionais. Ao contrário, agiu rápido e partiu para uma solução que surpreendeu a todos. Em vez de sondar novos quadros peemedebistas para a missão espinhosa, fez logo a aposta mais ousada e convidou o presidente do PMDB, cargo que Michel Temer acumula com a vice-presidência da República. Desta vez, Dilma foi bem-sucedida e ainda na noite de terça-feira reuniu-se com Temer no Palácio da Alvorada para examinar o momento político. Segundo o jornal “O Globo”, Dilma mostrou-se preocupada e chegou a falar de crise institucional “profunda”.

Considerado político hábil, experiente e sempre aberto ao diálogo, Temer foi rapidamente apontado como o homem certo para o lugar certo na hora certa. Sua presença no núcleo duro do governo vinha sugerida pelo ex-presidente Lula, que jamais concordou com a nomeação de Pepe Vargas. Em Brasília, todos lembram da passagem de Temer pela presidência da Câmara durante o último mandato de Lula, quando ele foi o fiel da balança nas relações entre o Executivo e o Legislativo. Deputado federal por São Paulo desde 1987, Michel Temer chegou a presidência do PMDB e foi por três vezes presidente da Câmara graças a seu espírito conciliador e ao estilo mais mineiro do que paulista. De fala tranquila e pausada, raramente se exalta. Convence pela força dos argumentos, que perfila com rara paciência. Nas entrevistas também sabe se desvencilhar das perguntas polêmicas, voltando rapidamente ao tema que lhe interessa, como é o caso da defesa do voto distrital no bojo da reforma política.

Temer sentiu-se confortável com a nova responsabilidade. E chamou para ajudá-lo, como uma espécie de secretário-executivo das Relações Institucionais (que deixou de existir formalmente), o ex-secretário-geral da Câmara Mozart Vianna, que havia deixado o posto há um mês, depois de 24 anos de serviços prestados à Mesa da Casa. Portanto, durou pouco a aposentadoria de Mozart – certamente, um dos mais respeitados especialistas na rotina da Câmara. Há motivo de sobra para esperar que a dupla Temer/Mozart traga vida nova às conturbadas relações entre o Palácio do Planalto e Congresso. O primeiro desafio é o esforço para convencer os líderes dos partidos da base aliada a firmar compromisso com o ajuste fiscal, mesmo que, para isso, sejam necessários recuos da Fazenda no corte de benefícios sociais, como o seguro-desemprego. Temer é sensível para as demandas dos deputados e sabe até que ponto é possível esticar a corda.

Sem dúvida, a escolha de Dilma é acertada, mas existe uma zona de sombra. Além de vice, Michel Temer é o presidente nacional do PMDB, partido de Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Nas tratativas com os demais líderes da base aliada, Temer estará vestindo a camisa do governo Dilma ou representando os interesses de seu partido, que nem sempre está de acordo com o Planalto? Este conflito de interesse sempre ficará no ar. Em resumo, o vice-presidente da República vai sair do conforto do Palácio Jaburu para enfrentar uma prova de fogo.

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