Por bruno.dutra

No Brasil, vivem-se dias de salada doutrinária e anda meio fora de moda colar rótulos à esquerda e à direita. Nas manifestações que marcaram o período pós-eleitoral, o que se viu foi simpatizantes de Dilma Rousseff de um lado e, de outro, os críticos raivosos da presidente. Falou-se de petistas contra coxinhas, mas isso não significou necessariamente a existência de dois polos ideológicos. Na verdade, as ideologias estão meio pastosas em nosso país.

E dizem que na Europa não é diferente. Lá surgem terceiras vias como aconteceu nas últimas eleições na Espanha. Mas a França, berço da revolução, continua a ser uma exceção. Por mais que os tempos mudem, os franceses não deixam de se dividir entre direita e esquerda. A clivagem política vem dos tempos de Robespierre e sobrevive aos séculos.

A imprensa da França é um espelho desta realidade. Em Paris, os jornais se posicionam às claras e os jornalistas também. Eleitores do Front Nationale, da família Le Pen, não leem o “Le Monde” ou o “Liberation”. E os socialistas evitam o “Le Figaro” e o “Le Parisien”. Obviamente, os entrevistados são submetidos a esta transparência editorial. Lá, é costume cobrar coerência das autoridades. Ao contrário do que ocorre no Brasil, os repórteres também têm o hábito de se pôr em pé de igualdade com os governantes e fazem perguntas sem qualquer tipo de reverência. São cidadãos e vão à luta sem temer reações. É a velha história: perguntar não ofende ninguém, ofensiva pode ser a resposta.

A entrevista da presidente Dilma ao canal France 24, na segunda-feira, seguiu essa tradição. E obrigou Dilma a expor suas convicções ideológicas de uma maneira inédita. Perguntou o repórter: “A senhora iniciou um enorme plano de austeridade de R$ 70 bilhões, que não era algo esperado de uma presidenta de esquerda. Por que a senhora fez isso?”. Eis a resposta franca e desabrida de Dilma: “Governo de esquerda ou de direita, ou de centro, quando percebe — e aí eu acho que é importante que governos de esquerda demonstrem isso — quando percebe que é necessário mudar, tem de fazê-lo. Têm de ter a coragem de fazer. O que nós estamos tendo é a coragem de fazer o ajuste, e um ajuste forte, para que a gente possa voltar a crescer de forma mais rápida”.

O repórter da France 24 poderia ter ficado satisfeito com a resposta. Mas, como pertence a um país em que esquerda e direita são forças vivas, ele insistiu e pôs em dúvida a coerência da austeridade fiscal: “A senhora diria, dentro do seu próprio partido, que continuará nessa linha, como disse, porque é necessário (o que é corajoso politicamente)? Ou a senhora terá que ouvir as vozes da esquerda que dizem 'Dilma Rousseff esqueceu que é uma presidenta de esquerda'?”.

De forma ostensiva, Dilma assumiu seu campo ideológico: “Acho que isso muitas vezes acontece. E aconteceu no mundo várias vezes. Aconteceu, por exemplo, com o Mitterrand. Acredito que um governo de esquerda tem de demonstrar ser capaz não só de fazer uma política social, mas também de saber fazer uma política macroeconômica de estabilização. Porque nós, governos de esquerda, temos compromisso em não elevar o desemprego a taxas absurdas, como ocorre em vários países da Europa”.

Portanto, graças ao canal France 24, o eleitorado brasileiro ficou sabendo que Dilma Rousseff , apesar do ajuste fiscal, ainda tem compromisso com o ideário de esquerda. Goste-se disso ou não.

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