Verão frio na zona do euro

O crescimento da zona do euro continua fraco, e aponta para uma perda da dinâmica da recuperação

Por bruno.dutra

Aumenta a pressão por um relaxamento das políticas monetárias. Porém uma pergunta continua no ar: este verão frio é um prenúncio de estagnação prolongada? Os dados do segundo trimestre das principais economias da zona do euro foram preocupantes. O desempenho da poderosa Alemanha, com uma participação de 30% do PIB do grupo, foi o que mais assustou: uma retração anualizada de 2%.

Grande parte desse resultado teve a ver com as exportações e o investimento fracos, resultado fortemente influenciado pelas tensões geopolíticas iniciadas pela crise da Ucrânia. Essas tensões parecem ainda estar longe de serem solucionadas, e as sanções impostas à Rússia tendem a afetar mais ainda as já enfraquecidas exportações de máquinas, equipamentos, automóveis e químicos.

A França não apresentou crescimento algum. Trata-se do segundo trimestre de estagnação. E as predições não são das melhores: o próprio ministro da fazenda, Michel Spin, reduziu seu prognóstico de crescimento para este ano para 0,5%, e 1% para 2015 — quando as expectativas oficiais eram, até pouco tempo, respectivamente 1% e 1,7%. Com isso, o grau de confiança do setor empresarial e dos consumidores franceses está em pleno declínio, o setor imobiliário e de construção encontram-se em retração, e há uma ameaça de deflação. Todos esses são indicadores antecedentes muito ruins para investimento, consumo e crescimento futuros.

A economia italiana se retraiu em 0,2%, o que confirma que o país volta a se encontrar tecnicamente em recessão. Com esses resultados, o PIB italiano retorna aos níveis do ano 2000 — trata-se do pior desempenho na economia da zona do euro desde a formação da união monetária europeia. As exportações foram outra vez o vilão do crescimento italiano. E como há indicações fortes de que a Itália está presa a um quadro de baixa competividade, são poucas as expectativas de uma reversão breve.

Espanha tem o quadro mais dramático dentre essas economias. Apresenta uma das maiores taxas de desemprego na Europa (cerca de 25%) e seu PIB cresceu somente 0,6%. Continuam em retração o mercado imobiliário e o setor de construção — que foi um dos setores responsáveis pelo crescimento antes da crise de 2008, Por outro lado, com um déficit fiscal de 5,6%, a margem de manobra do governo é estreita.

Um desempenho econômico tão fraco sugeriria um maior apoio às politicas anticíclicas. Não é o que se observa. Para começar, o apoio na Alemanha a políticas menos austeras simplesmente inexiste: a lembrança do descalabro da hiperinflação gera resistências populares, a ponto de o atual equilíbrio fiscal na Alemanha ser quase um motivo de orgulho nacional. Por essa razão, a Alemanha exerce toda a sua influência por uma política fiscal austera para toda a união monetária — incluindo uma forte pressão sobre a França e a Itália, que têm, respectivamente, déficits públicos de 3,8% e 2,6% do PIB.

Quanto à politica monetária, apesar da grita para que as autoridades da zona do euro adotem o exemplo americano (de política monetária não convencional), o próprio presidente do Banco Central Europeu indicou resistência a qualquer medida de quantitative easing antes do inverno. De quebra aumentou a pressão para que, antes de permitir a adoção de outras medidas anticíclicas, Franca e Itália se comprometam com processos de ajuste estrutural.

Com esse quadro de tensões geopolíticas em alta e de profunda restrição a políticas contracíclicas, a saída para a zona do euro poderia ser de expansão do comércio com parceiros de fora. Porém, o quadro externo apresenta grandes desafios, especialmente porque o comércio internacional teima em andar de lado. Ou seja, o verão europeu veio acompanhado de ventos frios, e do inverno não se espera nenhum aquecimento. E um desempenho como este, se prolongado, pode gerar uma armadilha de baixas expectativas de longo prazo, baixos investimento e perda de competitividade — e um possível quadro de estagnação.

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