Por douglas.nunes

O comércio exterior de bens industriais mantém em 2014 uma característica que o acompanha há quase uma década: o seu déficit é crescente. Segundo dados de uma pesquisa publicada pelo Iedi em seu site, o resultado comercial foi de US$ 18,8 bilhões no primeiro trimestre deste ano, enquanto no mesmo período do ano passado fora de US$ 16,3 bilhões, um aumento de 15%. No ano passado, frente a 2012, o agravamento do déficit teve dimensão um pouco maior, 23%. Se o corrente ano não traz novidade por este ângulo, as causas da piora do desequilíbrio introduz fatores novos.

Desde 2008, quando os déficits da indústria como um todo começaram a surgir, a sequência de majorações acompanhou de perto o que ocorria no comércio exterior de bens da indústria de alta e média-alta tecnologia, aumentando em magnitude sempre muito próxima à progressão do déficit nestes segmentos. Cabe observar que o levantamento segue uma classificação de produtos industriais por intensidade tecnológica da OCDE. Pelo menos em seu início, o ano de 2014 é diferente porque o resultado global manteve a tendência anterior a despeito de não ter sido maior o resultado negativo nos segmentos de mais alta tecnologia. O problema desta feita teve origem em média-baixa e baixa intensidade tecnológica e foi decorrência de menores exportações em dois dos seus principais ramos: produtos metálicos (destaque para aço) e alimentos.

Nesses casos, se perdeu frente ao primeiro trimestre de 2013 cerca de US$ 1,5 bilhão em exportações, quase três quartos da redução total de vendas externas industriais contabilizadas no período. Como esses ramos estão entre os que mais se aproximam do que poderíamos chamar de “commodities industriais”, o que estamos assistindo se insere no capítulo dos problemas que vêm afetando as exportações de commodities brasileiras de um ponto de vista geral, que já não mais apresentam o mesmo dinamismo de outros tempos.

O outro lado da moeda deve também ser destacado. Se houve grande desvalorização do real nos últimos três anos, por que o comércio exterior dos segmentos industriais não tão “commoditizados”, vale dizer, de alta e média-alta tecnologia, não reagiram? A nossa experiência passada autorizaria antever que as importações já deveriam ter reagido com queda e as exportações, com alguma defasagem, já deveriam ter aumentado. As importações não caíram nos últimos anos, mas tiveram taxas de variação declinantes: 2,9% e 0,4%, respectivamente nos primeiros trimestres de 2013 e 2014. Em nosso ponto de vista, este menor ritmo está associado à desaceleração do crescimento econômico doméstico e não ao câmbio.

Do lado das exportações, quedas são observadas pelo segundo ano (-11,8% em 2013 e -1,5% em 2014). São resultados que parecem mostrar que o câmbio tampouco fez efeito ou, se tanto, que no máximo a mudança cambial colaborou para reduzir a intensidade da retração.
Três fatores devem estar relacionados à fraqueza com que importações e exportações vêm reagindo à desvalorização do Real. O primeiro diz respeito à situação da economia mundial, onde ainda prevalece um crescimento muito baixo do comércio, razão pela qual há uma concorrência maior entre as economias por conquista de fatias em mercados externos. O segundo é atinente às expectativas empresariais que foram sendo formadas no Brasil na última década e meia. Em muitas ocasiões, fortes desvalorizações da moeda foram seguidas rapidamente por valorizações compensatórias, como ocorreu em 1999, 2002 e 2008. Isto desnorteou as decisões empresariais que normalmente se seguiam às mudanças no câmbio.

Com receio dessas reversões, as decisões se tornaram mais rígidas em substituir o produto importado por produção doméstica e em celebrar novos contratos para exportação. Finalmente, houve desindustrialização no país e perda de competitividade. Isto tornou muito difícil, senão impossível, a substituição do produto importado e o aumento de exportações em bases de qualidade e preços correspondentes.

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