Ministro da Justiça, Sergio Moro, na CCJ do Senado - Reprodução/ TV Senado
Ministro da Justiça, Sergio Moro, na CCJ do SenadoReprodução/ TV Senado
Por Chico Alves

Esta terça-feira deveria ser o dia em que Sergio Moro estaria dominando as conversas em Brasília. Afinal, o ministro da Justiça depõe hoje na Câmara dos Deputados a integrantes de quatro comissões. O assunto, como se sabe, são os vazamentos obtidos pelo site The Intercept com conversas entre o ex-juiz e procuradores da Operação Lava Jato. O clima de perguntas e respostas promete ser bem mais animado do que foi no Senado, já que na Câmara os debates são mais acalorados. Por isso a expectativa é grande. Mas os tuítes de Carlos Bolsonaro conseguiram dividir as atenções. Seus ataques recentes ao chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e ao vice-presidente, Hamilton Mourão, são tema obrigatório em qualquer bate-papo desde ontem.

Em resposta a um seguidor que comentava a apreensão de 39 quilos de cocaína no avião presidencial, em Sevilha, Carlos escreveu nas redes sociais:“Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI?”. No governo, a ordem é não dar um pio sobre a saia justa em que o filho 02 do presidente Jair Bolsonaro enfiou Heleno, jogando suspeita sobre o general. O único autorizado a falar foi o porta-voz da Presidência da República, Otávio do Rêgo Barros. Ele disse em coletiva que o GSI possui qualificação “bastante extremada” e que seus recursos humanos “são preparados da melhor forma possível para promover segurança”. Heleno obviamente não gostou nem um pouco da citação do filho do presidente, mas guardará a revolta para si.

Um pouco mais tarde, em postagem no Twitter, Carlos criticou a promoção relâmpago de Antônio Hamilton, filho do vice-presidente, que agora é gerente executivo de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil. Cinco dias após Mourão ser empossado, Antônio já tinha recebido uma promoção. Um dos seguidores do filho do presidente escreveu: “Ué, homem muito competente, duas promoções em menos de 6 meses”. Carlos, então, aproveitou para ironizar: “Esse é bom bagarai!”. Nos bastidores, militares da ativa se mostram bastante irritados com esses pitacos (veja aqui).

O governo torce para que o assunto esfrie assim que Moro começar a falar aos deputados. Pela maior quantidade e pela formação heterogênea, os inquisidores de hoje são bem mais participativos do que foram os senadores. "As sessões da Câmara vão da valsa ao funk", brinca o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Sobre os vazamentos publicados pelo The Intercept, Veja e Folha de São Paulo, Freixo espera que o ex-juiz responda num eixo diferente do que vem fazendo até agora. "Moro adotou um caminho perigoso para a República de justificar em função do que a opinião pública acha sobre a Lava Jato, como se ele tendo feito ou não alguma coisa de bom pudesse justificar qualquer ação", argumenta. "Isso tem uma consequência, que é criar dentro da Justiça a ideia de que os fins justificam os meios".
O timing do depoimento aos deputados é favorável a Moro. Ele deverá usar a oportunidade para falar  do pacote Anticrime, uma das bandeiras dos manifestantes que saíram às ruas no último domingo, e reduzir o tempo de discussão sobre os vazamentos do The Intercept, apoiado pela bancada governista. O relator do grupo de trabalho que analisa o pacote divulga seu relatório amanhã e acredita que ele pode ser aprovado "Acho que a gente tem que aproveitar essa lacuna no plenário para votar essa iniciativa anticrime", defende o deputado Capitão Augusto (PL-SP). 
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Seja como for, os integrantes do governo esperam que, à medida que o depoimento do ministro da Justiça avance e o debate esquente, as polêmicas de Carlos Bolsonaro saiam de cena. Pelo menos até a próxima postagem do filho do presidente.