Coisas do Rio
Coluna
Coisas do Rio
Thiago Gomide - thigomide@gmail.com

Quantos cliques essa moçada merece?

Colunista volta a lecionar no Ensino Médio, lembra de momentos com antigos estudantes e faz uma exaltação aos professores e professoras

Por Thiago Gomide

Em 2012, esse colunista com os estudantes do Colégio Estadual José Leite Lopes, na Tijuca.
Em 2012, esse colunista com os estudantes do Colégio Estadual José Leite Lopes, na Tijuca. -
“Professor, podemos assistir a mais essa aula?", me perguntaram alguns estudantes.

Fiquei espantado. O momento era especial, mas não esperava. Com consenso da direção, evidente que permiti. O dia era de despedida.

Meus últimos 50 minutos como professor de Ensino Médio foram tal qual uma corrida de recuperação: perdi algumas vezes o norte e precisei me concentrar para não sair da pista. O conteúdo precisava ser trocado, mas como?

A sala de aula estava apinhada. Nesse instante havia quase duas turmas completinhas. Os meninos e meninas do segundo e do terceiro ano do Colégio Estadual José Leite Lopes, o NAVE, na Tijuca. Instituição de ensino que contava com o apoio da Oi e foi considerado pela Microsoft um dos 30 que melhor trabalha a tecnologia no mundo.

Todos já sabiam da minha saída.

Em 2012, fui professor de roteiro de uma moçada que mudou a minha vida. O meu jeito de lidar com educação. Com o Rio de Janeiro. Eram estudantes de tudo que é canto da cidade.

“Gomide, o Pará está sozinho em casa nesse tiroteiro da Rocinha", me avisou um aluno. O caos estava acontecendo. Mortos e feridos por tudo que é canto.

Só faltou eu ligar pra Nasa. Nada podia e nem pode acontecer com um estudante meu. É assim que pensa todos os professores. Sem exceção. Faz parte do nosso universo.

Em uma despedida informal (que são as melhores), em uma pelada em um clube em Vila Isabel, elas e eles colaram vários post-its no vidro do meu carro. Tinha de agradecimento a cobranças (real). Estava e ainda estou  devendo um lanche no Habib’s. 

A vida foi tomando outros rumos e segui meu caminho de repórter, em especial do setor educacional e cultural. Apaixonado, mas longe da sala de aula. A vida deles tomaram rumos distintos. Alguns se tornaram médicos, jornalistas, atores, professores, músicos, enfermeiras.

Em 2016, estava sozinho em um quarto de hotel no Acre. Era sábado. Bebia um vinho. A semana de trabalho foi intensa. Abri o Facebook para ver as novidades. Uma professora amiga da rede pública municipal do Rio tinha postado que bandidos invadiram a escola que ela trabalhava e roubaram computadores. Senti uma aflição tão grande que tomei uma atitude que raramente faço: escrever por impulso. Queria saber se minhas ex-alunas e alunos estavam bem e, caso contrário, a briga estava formada com quem quer que fosse.

Não deram cinco minutos e recebi um zap de uma madura ex-aluna. “Tá tudo bem?”. Hoje ela é advogada. Acho que apaguei a postagem.

O filme terminou. As luzes se acenderam. O público levantou. Menos eu. Estava em choque. Feliz demais. Fernanda, já me conhecendo, ficou me olhando, complacente. Digão, querido ex-aluno, tinha arrebentado. Imenso ator. Lembrei de cada fato vivido com ele. “Esse cara já arrancou uma árvore em Vila Isabel", pensei. “Sabia que tinha estrela", conclui.

Nesse período de repórter, jurado, colunista, editor, executivo, apresentador, consultor, recebei alguns convites para voltar a ser professor de Ensino Médio. Até mesmo de história, minha segunda formação. Recusei todas. As desculpas atravessavam o receio de estar enferrujado e a dura falta de tempo.

Precisava de algo que me tirasse do eixo. Tal qual as turmas que me ensinaram a sentir educação.

Hoje, depois de alguns bons e aventureiros anos, volto à labuta de professor de meninos e meninas com seus 15 anos. Dentro de uma agenda apertada, mas extremamente afetiva. Se não fosse a realidade virtual, esse sonho não se concretizaria.  

Sinto que a corrida é de recuperação. Sinto que vou aprender novos rumos. Sinto que daqui a pouco estarei emocionado quando um estudante vencer ou uma fera quando alguém estiver em perigo.

Essa é alma da professora. Essa é a alma do professor. 
Que venha dar eletiva de "Comunicação Criativa" no Andrews. Ver a turma de longe já me tirou do eixo. 
 
 

Comentários