Babu Santana
Babu SantanaChristoffer Pixinine/Juliana Rocha
Por O Dia
Alexandre da Silva Santana, mais conhecido por Babu Santana, é o entrevistado desta semana da coluna. No bate-papo a seguir, o ator e ex-'BBB' fala sobre o reality, sua série no Gshow e também racismo. "Até hoje me questionam o que faço com o meu dinheiro e que ganho trabalhando honestamente. Por que? Será que estão perguntando isso para os influenciadores brancos que estavam no 'BBB'?", pergunta. Modéstia à parte, esta colunista recomenda a leitura.
De quem partiu a ideia desse projeto da série 'Em casa com Babu? Houve alguma adaptação para levar do Gshow para a Globoplay?
Minha equipe e eu vimos que o programa semanal que tenho feito, o 'Fechado com Paizão', tem trazido um engajamento forte do público e, ao mesmo tempo, muita gente comentava que estava com saudade de fazer parte da minha rotina. O 'BBB' fazia com que a gente sentisse que estava convivendo na mesma casa: público e personagens. Conversando com as minhas parceiras de Projetos e Comunicação (Gabriela Monteiro, Carol Condé e Bárbara Bono) achamos que este seria um caminho interessante pra desenvolvermos lá com a Globo.
Eu  já tinha o desejo de fazer algo nessa dinâmica, onde pudesse me sentir ainda mais próximo do meu público também. Conversamos com o GShow e juntos chegamos neste formato bem especial e intimista. Na minha casa, onde acontecem todas as gravações, seguindo as normas de segurança da OMS, tem sido o cenário ideal para este projeto. O mais bacana foi a co-criação de todos ao longo do processo e dos diferentes olhares, incluindo roteiristas mulheres, a Claudia Alves e Anne Ribeiro, e a direção do Nilo Maia. Aprendemos todos juntos a cada programa. Se terá uma adaptação para TV, isso é algo que não posso prever, mas certamente seria bem bacana. Estou muito empolgado com todo o retorno e carinho do público.
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São quantos episódios? Existe a possibilidade de novas temporadas?
São quatro, cada um com uma temática e convidados diferentes, o que acaba sendo muito especial. Conseguimos explorar muitos assuntos, transmitir visões de mundo que se complementam e, claro, fazer o público se sentir acolhido e também representado. Sobre possibilidades de novas temporadas... eu iria adorar. Tem sido uma experiência desafiadora, mas muito prazerosa.
Soube que você tinha interesse de levar uma série para Netflix. Era essa?
O programa 'Em Casa Com Babu' foi criado com, e exclusivamente, para o GShow. Tenho sim muitos projetos sendo rascunhados, seja na área musical, com minha banda, seja na TV e, também, no meu canal do YouTube, onde estou investindo tempo para o aprimoramentos de todos esses conteúdos. Então, ainda não consigo adiantar se algo irá pra algum streaming. Estou focado agora nos projetos que já estão em andamento.
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Que tipo de série você teria em mente para desenvolver?
Com certeza algo com uma essência toda artística, que é meu maior propósito e direcionamento de vida. Então eu pensaria em algo que juntasse teatro, música e cinema. Gostaria de explorar múltiplas formas de expressões artísticas.
Pensa em investir nesse lado de direção e roteiro?
Sim, e já tenho praticado isso com algumas produções para as minhas redes sociais e o meu canal do Youtube. Tem sido bem diferente, porém satisfatório.
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Os personagens para pretos sempre foram e ainda continuam muito estigmatizados, sendo sempre oferecido para o ator preto os papeis de empregado, escravo, bandido ou coisas do tipo. Você acha que os autores ainda têm um racismo estrutural na hora de escreverem novelas ou os produtores de elenco que ainda cultivam essa visão na hora da escalação?
Não é o diretor ou o produtor, um ou outro, é estrutural na nossa sociedade como um todo, o racismo não está numa área específica, está em todos os lugares. O racismo estrutural se reflete em tudo: na forma como educamos, em quem morre (de fato) durante uma pandemia, em vagas de emprego, enfim, tudo. Esses estereótipos devem ser desconstruídos, e a gente faz isso mostrando nossa voz, nosso talento, reivindicando oportunidades, dialogando, questionando espaços onde pretos não estão sendo protagonistas. Depois do caso George Floyd vimos muitas pessoas se colocando como antirracistas. Mas aqui no Brasil morrem milhares de Georges todos os dias. Não podemos dormir tranquilos enquanto a desigualdade estiver normalizada. Até hoje me questionam o que faço com o meu dinheiro e que ganho trabalhando honestamente. Por que? Será que estão perguntando isso para os influenciadores brancos que estavam no 'BBB'? O branco precisa entender seu lugar de privilégio, abrir portas efetivas de diálogo, espaço e um olhar atento. Na prática, por exemplo, se eu sou um ator branco e estarei num papel protagonista numa próxima novela, eu deveria perguntar "quem está junto comigo? Tem alguma mulher ou homem negro aqui também?". Esse exercício precisa ser diário e a indignação sobre os acontecimentos racistas nesse país não pode ser seletiva.
Os personagens de destaque para pretos ainda são raros e, se fomos mais longe, a presença de casais pretos protagonistas dá para contar numa mão e sobram vários dedos. Você acha que isso é uma barreira das emissoras ou uma não aceitação do público e do mercado publicitário?
Acredito que faltam muitas coisas para que a história seja justa com todos. Não dá para afirmar que é apenas um fator, mas sim uma dívida histórica e estrutural. Claro que não podemos negar que existem avanços, mas insuficientes ainda. Não acredito em não aceitação do público, até porque o público quer se sentir representado e vivemos no Brasil, onde mais da metade da população, segundo dados do IBGE, se declaram negros. Não podemos esquecer.
Temos campanhas publicitárias recentes que tiveram personagens diversos (mulheres pretas, homens pretos, trans etc) e ficou nítido o retorno financeiro, inclusive, para essas empresas. Sabe aquela música "estranhou o que? Preto pode ter o mesmo que você"? Então, é isso. O mesmo vale para os personagens dos filmes, séries e novelas. Precisamos agora que a atitude das marcas e das emissoras venha e caminhe junto ao discurso. A transformação começa também da porta para dentro.
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Depois da exposição que você teve no 'BBB', acha que o racismo com você continua igual, diminuiu ou passou a ser velado porque agora você é o Babu paizão?
O racismo é algo que existe desde que um branco se achou no direito de escravizar um preto. E isso está na nossa estrutura, infelizmente. Até hoje pego fake news rodando pela internet com meu nome. Qual interesse de quem faz isso? Até cena de filme que já participei foi descontextualizada, me colocando como bandido. Pior é ainda quem repassa essa corrente de ódio e desinformação. O racismo é algo que deve ser discutido sempre, porque sempre estamos vendo pretos e pretas perderem suas vidas e sonhos apenas pela cor da pele. Isso não é velado, isso é gravado. Todo dia.
O que você acha dessa cultura do cancelamento?
Atrás do computador, com nome falso, é muito fácil ter uma postura agressiva e pouco aberta ao diálogo. É mais fácil apertar um botão ou fazer um tweet xingando ou excluindo alguém, do que estar disposto a mostrar o erro, trocar e educar. Temos um caminho de evolução, em várias áreas da vida. Ninguém é 100% uma coisa só. Somos seres humanos em construção. Não podemos confundir a história da cultura do cancelamento - que também deu poder pra quem nunca foi ouvido e tem um lado dessa história que é importante - com o cultura do linchamento, que aí é só linchar pessoas enquanto deveríamos estar discutindo ideias. Óbvio que não está em discussão casos extremos de preconceito ou ódio. Nestes casos, quem faz isso precisa responder legalmente. Não é nem sobre cancelar a pessoa, mas sobre ter leis que deem conta disso.
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Você e Prior continuam amigos? Qual sua percepção sobre tudo que aconteceu aqui fora com ele após a saída do programa?
Nós nos falamos, sim. Ele foi um cara que tive boas trocas no BBB e esteve comigo em momentos difíceis na casa pra mim. E sobre suas questões de vida, cabe a ele responder. São questões da vida dele.
Você foi muito fiel a Thelminha e suas convicções desde o começo do 'BBB', o que é muito raro em realities desse tipo. Tenho que te falar com dor no coração que as pessoas não estão acostumadas com isso. Acha que isso te atrapalhou durante o programa? Ser honesto ainda causa desconforto nas pessoas?
O mundo está confuso, isso é um fato. Mesmo com meu posicionamento claro dentro do programa eu soube da pressão aqui fora do público na minha família, meus amigos e tudo mais. E tudo isso não era só em relação à Thelminha, e sim para com meus valores. A honestidade para com nossa essência é o que deve prevalecer. Não acho que me prejudicou, mas me ajudou. Eu falei muito que sairia de lá com minha cabeça erguida e que temos que confiar nas nossas convicções. Foi o que fiz. As pessoas, em muitas circunstâncias, preferem negar os fatos, esconder os sentimentos, escutar o medo e aí perdem sua essência. E se não olharmos para nós, criaremos muros, e muros dividem. É necessário que sejamos pontes, trocando aprendizado, mesmo que seja desconfortável, mas é evolutivo. Isso é a vida!
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Muitas vezes falaram durante o programa que você estava se vitimizando por falar das contas que tinha para pagar, sempre citando o aluguel e etc. Qual a diferença para você de vitimização e segregação urbana? Afinal, um número grande de pessoas não entendem a realidade do preto no Brasil.
É fácil uma pessoa que nunca viveu determinada realidade achar vitimista o discurso de quem está num contexto de pobreza, de falta de oportunidade igualitárias, de espaços que acolhem. E foi o que você disse: muitas pessoas não entendem, ou não querem entender, a realidade dos pretos, da falta de oportunidade, da ausência de políticas públicas desde o fim da escravidão. A segregação racial e urbana foi algo oficializado e apoiado por leis nos EUA, mas aqui não tivemos essa 'segregação' oficializada, porém temos os efeitos dela até hoje, quando vemos pretos ganharem menos, ainda que tenham excelentes formações, quando são perseguidos nas ruas e lojas, quando estão sendo colocados em lugares de subjugo. É a velha história que já conhecemos: um preto contando sua história é vitimismo, o branco, superação.
A TV brasileira é racista?
O mundo é racista.
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Você mostrou que adora cozinhar e dominou a cozinha do 'BBB'. Lugar de homem é na cozinha? Como lidar com o machismo sendo pai de duas meninas e um menino? Já se pegou dando tratamento diferenciado por causa do gênero deles?
Lugar de homem é na cozinha, na louça, na casa, na educação das crianças… Lugar de homem e de mulher não deveria nem ser diferenciado, deveríamos estar discutindo a ocupação dos mesmos espaços e a igualdade de direitos e isso inclui, obviamente, o papel na casa e nos afazeres domésticos. Essa não deve ser uma pauta relacionada a um gênero. Passo aos meus filhos os valores que acredito, que gostaria que eles reproduzissem no mundo. Tenho duas meninas e um menino e quero que todos possam realizar seus sonhos, que cheguem onde desejam e não quero que pra elas seja mais difícil. Sabemos que é muito, mas muito mais difícil para as mulheres negras e o que eu puder fazer pra ajudar, eu vou. Obviamente estamos sempre aprendendo e, inclusive para mim, que não tive uma criação onde esses assuntos eram colocados em pautas, aliás muitas dessas conversas são recentes pra todos nós, então é um crescimento diário, uma desconstrução diária. Não é fácil! Erro muito, sou corrigido direto, mas mantenho a escuta aberta e passo aos meus filhos isso. Tive que aprender sobre masculinidade tóxica pra entender onde isso me prejudicava, preciso estudar o feminismo negro pra poder dialogar com as meninas e por aí vai. Desconstruir falas e atitudes opressoras é um dever de todos.
Também durante o programa você mostrou ter uma veia de empreendedor, falando que se ganhasse investiria na Flay, por exemplo. Como anda isso? Pensa em produzir ou investir na carreira de empresário?
Tenho projeto de construir minha produtora, algo que já está em andamento. Quero ter meu espaço pra fazer conteúdos artísticos, com possibilidade de abrir portas para quem sonha viver da arte. É um planejamento a longo prazo que me deixará ainda mais realizado.