Passeio pela Ilha do Bom Jesus da Coluna

Localizada no interior da Baía de Guanabara, abrigava o Asilo dos Inválidos da Pátria, para ex-combatentes vitimados na Guerra do Paraguai

Por O Dia

Hoje há missas na Igreja do Bom Jesus da Coluna
Hoje há missas na Igreja do Bom Jesus da Coluna -

Rio - Há 75 anos, o governo da Alemanha finalmente assinava sua rendição e colocava, enfim, um ponto final na Segunda Grande Guerra Mundial - a assinatura ocorreu em 8 de maio de 1945. Passado todo esse tempo, relembrei eu cá da Guerra do Paraguai. Embora ocorrida no século XIX, entre os anos de 1864 e 1870, o conflito ficaria marcado para sempre na minha vida. É que lembro do meu vô postiço Antenor.

Postiço porque não tinha relação consanguínea com o 'Velho', como eu chamava carinhosa e respeitosamente. Vô Antenor foi o segundo marido da minha vó Beatriz, que me criou para vida. E era com ele que mensalmente íamos até a Ilha do Bom Jesus da Coluna. Localizada no interior da Baía de Guanabara, ela abrigava o antigo Asilo dos Inválidos da Pátria, onde ficaram ex-combatentes que foram vitimados na Guerra do Paraguai.

Eu, então com uns cinco anos, meu pai e meu vô Antenor íamos para lá levar mantimentos para Osório de Barros, pai do vô Antenor. Para chegar lá, a viagem era longa. Alugávamos um barco e partíamos do Caju em direção à Ilha. Levávamos peças de bacalhau, carne seca, litro de azeite, pacotes de sal, café em grão, réstia de cebola, além de feijão, arroz, açúcar, batata. Saíamos às 5h e eu de terno e gravata, mas de calça curta. 

Como falei, tinha cinco anos e foi minha primeira vivência com a violência. Isso porque o Velho pescava lá nas águas da Baía de Guanabara que circundavam a Ilha de Bom Jesus da Coluna com dinamite. Sim, para pegar os peixes, ele usava dinamite. Os velhos do asilo, é claro, quando escutavam aquela explosão, entravam em pânico. E eu também. Era uma loucura.

O Velho sempre andava de farda e impunha respeito. Até mesmo meu pai nem se atrevia a fumar na frente dele. Nascido em Palmeira dos Índios, em Alagoas, vô Antenor entrou para a Marinha aos 14 anos de idade. E foi como um castigo do próprio pai, Osório. Marceneiro de ofício, o Velho gostava de pescar na Ilha do Bom Jesus da Coluna.

A ilha era maravilhosa. Tinha água boa, mata, igreja. A Igreja do Bom Jesus da Coluna, de 1705 e da Ordem dos Franciscanos, está até hoje lá, assim como o Asilo dos Inválidos da Pátria, criado no meio da Guerra do Paraguai, em 1867. Mas nunca mais visitei o local, que já mudou muito, é claro. Afinal, entre 1949 e 1952, a ilha foi integrada, por meio de aterro, a sete ilhas vizinhas, formando a atual Ilha do Fundão.

Acho até que vou esperar o pandemônio da pandemia do novo coronavírus acabar para dar uma passadinha por lá. Pelo que fiquei sabendo, ainda hoje há missas na antiga igreja e para acessar o local basta se identificar na guarita militar, no início da Ilha do Bom Jesus, com entrada próxima à Reitoria da UFRJ. 

 

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