O silêncio da Aninha

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Por O Dia

É. O mundo dá muitas voltas. Aninha, a mulher do vizinho de bombordo aqui no condado de Água Santa, silencia. Não mais o funk e o pagode berram aos quatro cantos incomodando a mim e parte da vizinhança. Não mais a vaquinha dos churrascos nos fins de semana, com música e cerveja, em celebração à vida, que varava as horas do dia e da noite. Aninha, mulher do Jorge, o Pig, se foi vítima da covid-19.

O silêncio da voz macia da Aninha nos faz falta aqui. Quinze dias atrás, após mais um daqueles churrascos, daquela festa inadequada, reunião sinônimo de aglomeração, Aninha deu os primeiros sinais no novo coronavírus. O Pig, que começou a vida como entregador de farmácia e sabia com toda fé as receitas para curar desde unha encravada até ziques-ziras da alma, não se fez de rogado. 

De uma tacada fez a prescrição do antídoto para a febre inicial, que resolveu a questão. Então, novo churrasco. Porém, a saúde dela se complicou e a prescrição não mostrou eficiente. Afinal, covid-19 ainda não tem cura. Em duas semanas, Aninha piorou e foi parar no hospital. Morreu numa dessas unidades de Saúde sem respiradores, sufocada na esperança de continuar a vida. 

Aninha se silencia. E demonstra que não há solução fácil pra pandemia que nos assola. Só há o isolamento para seguir em frente. Mesmo que o presidente seja contra, que esperneie alegando que país vai quebrar, que prometa isso ou aquilo ou aquilo outro. Mas, ué, já não estávamos quebrados? Já não revivíamos o 'pibinho' antes do novo coronavírus? Então sem essa, só mesmo a quarentena pode nos manter vivos.

Não à toa, em certas favelas cariocas, a 'lei' tem sido muito clara: toque de recolher. Só pode ficar na rua até determinada hora, só pode sair para o necessário, o essencial. Já até circularam vídeos na internet em que a 'chefia' passava 'pedindo' a compreensão e a boa vontade de respeitar o 'decreto'. E ai de quem desobedecesse, pois seria punido pelo 'tribunal'. 

'Determinações' do submundo que me fazem lembrar de certas ajudas não oficiais dadas a órgãos de estados. Lembro da história da chegada da Força Expedicionária Brasileira (FEB) à Itália. Relatos informam que só teríamos avançado sobre território italiano com ajuda da Gamorra, máfia da região da Sicília.

Na invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1962, os mafiosos norte-americanos, que perderam seus cassinos na ilha após a revolução comandada por Fidel e Che, também teriam participado ativamente, com muito dinheiro, para financiar o fim do regime comunista. Eles desejavam retomar o capitalismo selvagem naquele paraíso caribenho. Se deram mal e perderam a batalha para o comandante Castro.  

No Rio também, dizem, tivemos alguns tratos entre governos e 'donos' da cidade. Lembro que foi muito comentada a tal de uma 'liberação' dada pelo crime organizado para a construção das linhas Vermelha e Amarela. E não podemos esquecer dos 12 Homens de Ouro da polícia fluminense. Na verdade, eram 13, mas aí é outra história. Grupo da elite policial, todos combateram a criminalidade com afinco, mas teriam mudado de lado e sucumbido à corrupção. Se verdade ou não, marcou época. 

Época que não volta mais. Assim como Aninha. Agora o silêncio tomou conta da Água Santa. Voltei a escutar os passarinhos cantando ao alvorecer e fins de tarde. Eles já estão aqui na minha janela para pedir alpiste. E eu peço para Jô, minha mulher, para ficar de olho nos gatos, para não comerem as rolinhas. E até os cães da família estão de luto... com a o silêncio da Aninha. 

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