Preso politicamente correto e duro

Fui ator em uma única aparição, em um programa que se chamava 'As Grandes Reportagens de David Nasser', na extinta TV Tupi

Por O Dia

Foi assim. O tempo correu mais do que o guepardo, o felino que atinge 115km/h em pouco mais de 72 segundos. Sessenta anos passaram disparados diante da minha vida. Lembrei disso porque, hoje, dia 18 de julho, em 1980, os transmissores da TV Tupi foram desligados definitivamente e a emissora, que foi a pioneira da televisão no Brasil, saiu do ar. E foi nos estúdios dela, na Urca, que em 1960, fiz minha estréia como ator.

Acreditem, fui ator em uma única aparição. Era programa, se não me engano, semanal e chamava 'As Grandes Reportagens de David Nasser', com capítulos teatralizados por Berlliet Júnior. O capítulo em que 'brilhei' teve o título 'Falta Alguém em Nuremberg'. Eu fazia um preso político de uns 45 anos de idade. E, na vida real, tinha 17 anos. Fui envelhecido graças à maquiagem. Apenas uma breve cena, com direito até a fala!

Época corrida na minha adolescência. Em plena era, quase distante, da juventude transviada. Será que alguém ainda se recorda dessa turma? Lambrettas, Vespas, casacos de couro, cabelos revoltos ao vento, noitadas perigosas e até criminosas na Zona Sul, Alto da Boa Vista, Joá, Barra da Tijuca - tão distante naquela época... E o idiota aqui, longe das esbórnias, homessa.

Voltando à minha vida de ator de uma única apresentação, surgiu um convite do Berlliet Júnior, que conheci em Vila Isabel durante uma reportagem que fiz por lá para curso de teatro que ele tinha em Copacabana. Topei e encarei mais um desafio. Foram meses de sacrifício. Estudava pela manhã, trabalhava no jornal à tarde e, agora, o curso à noite. Perdi até umas namoradas. Claro, consegui outras. Ninguém é de ferro.

Com uns quatro ou cinco meses do curso, surgiu uma oportunidade de trabalhar na televisão. Berlliet conseguiu encaixar alunos no tal seriado da TV Tupi, episódios que ele mesmo escrevia. E lá fui eu. Avisei aos amigos, parentes, conhecidos, pessoal do jornal - fiz meu lobby -, parti para ensaios e, finalmente, a noite da tão esperada estreia. A parte constrangedora foi que teria que ter autorização de um responsável. Eu era menor de 17 anos.

Bem, vou explicar o episódio que participei: a trama toda se passava na época de Getúlio Vargas, início da II Guerra Mundial, quando o presidente tendia para o lado dos alemães. A polícia política havia prendido a mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, Olga Benário. Ela foi, depois de torturada no Dops, enviada para um campo de concentração na Alemanha.

O episódio se passa exatamente na saída de Olga da prisão, no Rio de Janeiro, para ser embarcada para a Europa. Eu seria um preso político, envelhecido, e estava em um xadrez vizinho ao de Olga. Os policiais passariam com Olga, diante da minha cela. Então, eu sairia do fundo do meu cubículo e, agarrado às grades, começaria a gritar ofensas aos algozes, "miseráveis, canalhas, covardes". Entenderam a situação? Não existia o tal de vídeo tape. Era ao vivo, em preto e branco!

Afinal, amigas e amigos, consegui me sair como um verdadeiro ator. Confesso que me senti um Paulo Autran, sem falsa modéstia. Terminado o programa, elogios, abraços, apertos de mãos, um elogio e tanto do Berlliet e do diretor e a longa fila para receber o pagamento, o cachê do artista. No envelope, o tal de holerite, estava lá escrito o bruto, o líquido e os descontos... O montante - que nome para um cachê tão pequeno - deu para umas bebidinhas no bar em frente à emissora. Depois, o táxi para casa, ao lado da Praça da Bandeira. Acabou o dinheiro. Mas estava feliz e realizado. Entrei em casa correndo e, cadê a festa, os sorrisos, os abraços? Antenor, meu velho ranzinza e bronco, me aguardava ansioso: "Você trabalha na televisão? Então concerta a nossa. Deu defeito"...

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