Igual a lua de mel sem a noiva

Todo velório que se preze deve ter gurufim e muitas recordações para louvar o morto

Por O Dia

Tempos difíceis. Nem conseguimos cumprir a palavra, empenhada com Carlinhos Goela Larga, desde que foi detectada uma cirrose, daquela tipo federal, no companheiro. Ninguém conseguiu furar a fila dos transplantes de fígado, método usado por essas bandas, para tentar salvar o velho camarada. Ele era membro efetivo, e presidente de honra, da confraria Coquetel Molotov, grupo ativo que se reunia diariamente no Bar e Petiscos Cá Te Espero, um sórdido, sujo, sempre cheio e quase bem frequentado antro alcoólico aqui na Água Santa.
Não conseguimos o planejado enterro digno de um rei. Carlinhos, 77 anos, aposentado, desencarnou em uma madrugada fria nessa época de pandemia. Mas os amigos estavam lá, cambaleantes mas fiéis. Todos os presentes ao ato de passamento elevaram seus copos ao alto e beberam em homenagem ao de cujus. Não houve o gurufim planejado e combinado. O sepultamento aconteceu só na presença de dois familiares e um representante do grupo. Oh, vida cruel. Carlinhos ainda resistiu à doença por muito tempo. Mesmo abatido pelo mal, sempre estava na calçada, em frente ao bar, batendo o ponto diário. Mas, as portas do botequim permanecem fechadas desde o final de março. Dá até para desconfiar que a tristeza que o tomou em ver o 'templo' inativo, adiantou sua morte. .

A ideia do gurufim, seguido do enterro mais festivo do planeta, foi do vice-presidente do Coquetel Molotov, o Nélson Último Malandro. Boêmio, estivador aposentado, de idade 'aproximada' de mais de 70 anos, é o único ser que conheço que ainda usa o chapéu 'Sete Pancadas'. Vocês lembram desse chapéu? Abas largas, corpo alto, batido em sete pontos da indumentárias. Porreta no Rio de 1950. Todo malandro que se prezava usava um desses. Geralmente era na cor marrom escuro, com bom acabamento e fabricado em São Cristóvão, na indústria Chapéus Júlio Lima.
Mas, para não esquecer dos outros sócios do bando de amigos do copo, jamais poderei omitir a lista dos mais proeminentes e assíduos componentes do time: Arara, eletricista que somente sabia trocar lâmpadas queimadas e aposentado pelo Banco do Brasil, Tem o Bode, que foi reformado no Corpo de Bombeiros, o figuraça Beduíno, um negro de idade não definida mas, provavelmente, contemporâneo do Zepelim e que usa turbante vermelho (tipo árabe) e que deve ter ultrapassado a barreira dos quase 80 ano.
Tem o Temístocles (como ninguém, depois do oitavo copo de cachaça, conseguia chamar o cara pelo nome, apelidaram ele de Juvenal), aposentado da prefeitura, O Aranha Velha, não tem emprego, nem casa, nem família. Ele tem apenas os amigos. Vive ao Deus dará e é o faz tudo da região. Dá recados, leva cachorro para passear, faz apostas do jogo do bicho para os companheiros... O Tatu foi praticamente deixado de lado. Teve um AVC e quase não sai de casa. Bem, não vai dar para falar de todos. A lista é grande. E tem cada figura digna de capítulo individual.

Encontrei, ontem, - saí da caverna para ir até a Caixa Econômica defender meu FGTS - com o Nélson Último Malandro e o Aranha Velha. Estavam em um banco improvisado em frente ao Cá Te espero... Conversa vai, conversa vem, Nélson tratou de explicar seu último 'Decreto'. Afinal, ele agora é o presidente: É o Plano B. O próximo que morrer vai ser velado na calçada. Assim, amigo velho, teremos gurufim. É inadmissível velório sem gurufim. Claro que não teremos música e nem dança. Será bem mais calmo. Mas, não faltará bebida e recordações. Velório sem gurufim, meu caro amigo, é igual a lua de mel sem a noiva!

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