'Crivella e Witzel não ocuparam o protagonismo', diz cientista político

Fábio Vasconcellos, que também é professor da Uerj, analisa o atual cenário eleitoral do Rio

Por CÁSSIO BRUNO

Fábio Vasconcellos, cientista político e professor da Uerj e ESPM
Fábio Vasconcellos, cientista político e professor da Uerj e ESPM -
RIO - No momento em que as negociações políticas estão a todo vapor nos bastidores à eleição municipal do Rio para 2020, Fábio Vasconcellos, cientista político e professor da Uerj, analisa o cenário que tem novos personagens desde 2016, além de outros escândalos pós-Lava Jato que poderão influenciar nas urnas. Para o acadêmico, as investigações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o ex-assessor Fabrício Queiroz se popularizaram e ameaçam prejudicar o PSL. Segundo Vasconcellos, o apoio do governador Wilson Witzel (PSC) a um candidato à Prefeitura da capital, hoje, não é decisivo para uma vitória. E o prefeito Marcelo Crivella (PRB) tem imagem de “gestor fraco”.

O DIA: A “onda Bolsonaro” pode influenciar nas eleições municipais de 2020 no Rio?

FÁBIO VASCONCELLOS: É preciso lembrar que a história eleitoral da família Bolsonaro foi no Rio. Se olharmos o passado recente, pode influenciar. Resta saber se será onda ou marola. A cautela é em função do que ocorrerá até 2020. Witzel buscará se afirmar, procurando eleger ou apoiar prefeitos. Mas será em parceria com os Bolsonaro? Qual será a ênfase que os Bolsonaro depositarão nas eleições? Lançarão candidato próprio? Qual será o nível de desgaste do presidente?

As investigações contra Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz podem prejudicar candidaturas do PSL?

Escândalos políticos são de difícil assimilação pelo eleitor médio. Este não é. Se popularizou, seja em piadas, memes ou tratamento mais formal. A questão é: em que medida os adversários usarão? E faltam desdobramentos da investigação.

Como avalia o quatro eleitoral atual à disputa pela Prefeitura do Rio?

O quadro político no Rio se desmanchou profundamente entre 2016 e 2018. A prisão de lideranças do MDB e a perda do protagonismo que o partido vinha exercendo abriu espaço para um rearranjo de forças políticas. Isso ocorre com a eleição inesperada de Witzel e continua em curso, com surpresas podendo aparecer. Crivella e Witzel não conseguiram ocupar o protagonismo. E tem o baixo desempenho do prefeito e baixa ou incipiente imagem de Witzel. São fatores que deixam a eleição na capital em aberto.

O apoio do governador Witzel pode ser decisivo?

Hoje, Witzel não é decisivo. Pode ser relevante, e de fato é, mas não decisivo. Precisamos lembrar também que a capital tem uma dinâmica eleitoral diferente. Nem sempre o governador joga papel decisivo, embora tenhamos o caso do apoio de Cabral a Eduardo Paes.

O Witzel está neutro. Nos bastidores, diz ser candidato a presidente em 2022. Bolsonaro não descarta a reeleição. O PSL lançou o deputado Rodrigo Amorim com promessa de apoio do governador. E agora?

Muita coisa acontecerá. Precisamos ver qual será o desempenho do presidente até 2022 e qual será o de Witzel. Lideranças políticas, sobretudo Witzel, fazem a leitura simplificada. Se o cenário de 2018 foi propício para eles, nada indica que 2022 assim seja. Os eleitores terão informações sobre o desempenho do governador. É um fator importante. Witzel já não será mais outsider, nem Bolsonaro será o Bolsonaro que o Brasil elegeu.

Quais serão as principais dificuldades que Crivella terá para a reeleição?

A imagem não é positiva. Ele é visto como um gestor fraco. É um fator que pesa. Cria dificuldades para a recepção da mensagem de campanha. Pode ser revertido? De algum modo, sim. Mas o fato é que ele não parte do grid com uma quadro francamente favorável. Dada essa dificuldade inicial, a segunda será saber quais alternativas os eleitores terão? O tempo, hoje, joga contra Crivella, porque ele é um fator importante para a construção e afirmação de uma imagem positiva. Imagens construídas no calor da campanha são mais frágeis.

O que muda após o PSDB lançar a ex-secretária municipal de Educação Mariana Ribas à Prefeitura?

Não saberia dizer. Não fica claro qual o peso. A princípio, acho que nada muda, a não ser o fato de que o PSDB tenha escolhido não ser competitivo em 2020.

Qual será o desafio do Eduardo Paes (DEM)? A Operação Lava-Jato pode prejudicá-lo?

O mesmo de 2018: a agenda negativa. A população sabe o que é e o que foi a Lava-Jato. Mas tem um fato que joga a favor de Paes: ele deixou a prefeitura com aprovação em alta. A população da capital reconhece suas realizações e a imagem dele é de político dedicado.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) quer unir a esquerda. Diz ter apoio do PT e deseja o PDT, que quer lançar a deputada Martha Rocha. Quais as chances da esquerda vencer?

É a pergunta de um milhão de dólares. É preciso reconhecer que Freixo cresce. Mas precisa chegar à Zona Oeste, à Zona Norte, à Barra. A questão é o discurso. Ser oposição, apresentar proposta factível, menos sindical e que fale para toda a cidade. Pode gerar perdas na esquerda mais aguerrida, mas talvez seja uma troca, numericamente, importante.
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